01 novembro 2020

P / INFO: Crónicas, & Capela do Rato, horários das celebrações

Frei Bento: A vida é um exercício de esperança

Pe. Anselmo: Fratelli tutti (4). A fraternidade e as religiões

Cardeal Tolentino: A morte é uma flor

Pe. Vítor Gonçalves: Santos? Nós?

 

A VIDA É UM EXERCÍCIO DE ESPERANÇA

Frei Bento Domingues, O.P.

Evitar a pergunta sobre o sentido da nossa passagem pela terra é descuidar a questão essencial.

 

1. Segundo o grande historiador das religiões, Mircea Eliade, a crença na vida para além da morte está demonstrada desde os tempos mais remotos. As primeiras sepulturas conhecidas confirmam a antiguidade dessa crença. Os enterros direccionados para Oriente – e os usos dos seus rituais – indicavam a intenção de conectar a sorte da alma com o curso do sol, ou seja, a esperança num “renascimento”, a existência num outro mundo com marcas e utensílios das ocupações da vida anterior. Daí a sua conclusão: o homo faber era também homo ludens, sapiens e religiosus[1].

A festa de Todos os Santos e a celebração de Todos os Fiéis Defuntos podem ser estudadas como fenómenos internos do cristianismo, mas também em ligação com outra história subjacente: a história da cristianização de festas e mitos pagãos.

O desejo de viver e de renovar a vida parece fazer parte de qualquer ser humano. Para uns, a morte apresenta-se como o fim dessa utopia. Para outros, é inconcebível que esse desejo natural possa ser frustrado e acreditam, de modos muito diferentes, que a morte não é a última palavra.

Diz-se que a biomedicina actual promete a imortalidade do corpo neste mundo[2]. Veremos, como dizia o ceguinho.

2. A posição do ser humano, na totalidade do cosmos, continua muito periférica, embora carregada de perguntas. Que são, afinal, os meus anos de vida em comparação com a idade da humanidade? Que são os 100.000 anos da humanidade em comparação os 13 milhões de anos do cosmos? E para onde vai a grande história do cosmos? Para onde vai a humanidade e para onde vou eu próprio?

No nosso tempo, essa problemática assumiu dimensões que nos afectam, na relação e no comportamento com o nosso planeta, que não podemos ignorar. Apesar de todos as incoerências – devido sobretudo aos falsos interesses das grandes potências – vai crescendo a sensibilidade a respeito do ambiente, do cuidado com a natureza e com tudo o que de negativo está acontecer à Casa Comum.

Quando se pergunta que tipo de mundo se procura deixar às futuras gerações, a resposta não pode ser fragmentária. O Papa Francisco, com a Encíclica Laudato SI, tentou abrir o caminho para uma ecologia integral, ajudando-nos a tomar consciência de que, sem nos reconhecermos como irmãos – Fratelli Tutti –, deitamos a perder as melhores conquistas da história humana. Evitar a pergunta sobre o sentido da nossa passagem pela terra é descuidar a questão essencial. Não somos seus donos, estamos de passagem e devemos deixá-la melhor do que a encontramos.

Temos, por isso, o direito e o dever de nos apaixonarmos pelas coisas da Terra, como dizia P. Teilhard de Chardin. Na poética bíblica, são coisas do jardim de Deus para o trabalho e alegria de todos os seus filhos e filhas: um ensaio para entrar nos misteriosos novos céus e nova terra, onde serão enxugadas todas as lágrimas[3].   

3. O Credo cristão apresenta-se como um tecido das razões da grande esperança, alma da religião. Termina assim: e espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há-de vir. Ámen[4].

Não diz como é que isso possa acontecer e duvido das explicações teológicas que encontrei. Inscrevo-me na prática da antiga teologia negativa que exige o salto da negação para obter afirmações que superem a própria analogia.

Para mim, esta confissão de esperança é uma admirável e rotunda recusa do niilismo. Para quem acredita que Jesus Cristo é Deus-connosco, a última palavra sobre a aventura humana não pode ser a evidência empírica da morte. Deus pode querer os seus filhos e filhas, para sempre, irmãos e irmãs de Cristo crucificado.  

 Um processo de canonização é muito caro, muito selectivo, muito influenciado pela geografia, em alguns casos muito demorado e noutros parece demasiado apressado. De qualquer modo, não corresponde à fantástica visão do Apocalipse – livro admirável da resistência cristã – proclamada, hoje, na celebração de Todos os Santos: «uma multidão imensa que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas» fazem parte do verdadeiro corpo místico de Cristo.

Nesta celebração, além do texto referido do Apocalipse, a 1ª Carta de S. João é de uma ousadia extrema. Insiste que já somos filhos de Deus, mas ainda não vemos Aquele em quem pusemos a nossa esperança. Quando se manifestar, então, veremos não só quem Ele é, mas descobriremos também que somos mesmo semelhantes a Deus[5].

As famosas bem-aventuranças são o tema do Evangelho de S. Mateus, seleccionado para a celebração de Todos os Santos. É paradoxal: felizes são os infelizes. Felizes os pobres, deles é o Reino dos Céus; felizes os humildes, possuirão a terra; felizes os que choram, serão consolados; felizes os que têm fome e sede de justiça, serão saciados; felizes os misericordiosos, alcançarão misericórdia; felizes os puros de coração, verão a Deus; felizes os que promovem a paz, serão chamados filhos de Deus; felizes os que sofrem perseguição por amor da justiça, deles é o Reino dos Céus. E conclui, dirigindo-se aos discípulos: «bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa»[6].

Não se trata de uma reportagem, em directo, de um sermão ou de alguém que tinha uma memória prodigiosa para reter e conservar palavras que só foram escritas cerca de 50 anos depois. Os Evangelhos são interpretações contextuais, não traições, para transmitir o espírito de Cristo, segundo as necessidades das comunidades cristãs, em tempos diferentes.

Neste sermão, são alterados os critérios mundanos da felicidade. Foi-nos revelado que Deus vê o mundo a partir da periferia, dos que são deixados ao abandono. Só nos parecemos com Deus, quando é também esse o nosso olhar e o nosso cuidado. Mas é, também, um corte com os desejos que Jesus notava nos seus discípulos: eram pobres, mas com o sonho de se tornarem ricos, poderosos, dominadores. As bem-aventuranças são uma radical alteração de valores, acompanhadas pelas obras de misericórdia, pelas quais somos julgados.

A vida é um exercício de esperança, como diz Enzo Bianchi, não de enganos. Quando em certa pregação e espiritualidade se insistia: sofre, sofre agora porque estás a ganhar um lugar no céu, estava a perverter o espírito cristão da esperança.

Neste doloroso tempo de pandemia, as bem-aventuranças estão a ser vividas por crentes e não crentes que ajudam a resistir à sua cruel devastação.

Sem esperança é impossível viver.

in Público 01.11.2020

https://www.publico.pt/2020/11/01/opiniao/opiniao/vida-exercicio-esperanca-1937350



[1] Cf. Hans Küng, Vida Eterna? Cristiandad, Madrid, 1983, pp.94-96

[2] Cf. Daniel Serrão, Questões de Bioética, in Deus no século XXI e o futuro do Cristianismo (Coord. Anselmo Borges), Campo das Letras, 2007, pp. 333-345.

[3] Ap 21, 1

[4] Credo Niceno-Constantinopolitano

[5] 1 Jo 3, 1-3

[6] Mt 5, 1-12

 

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Fratelli tutti (4). A fraternidade e as religiões

 

Do tríptico liberdade, igualdade e fraternidade, é a fraternidade que, sem a referência à transcendência, tem dificuldade em encontrar um fundamento último sólido. Por isso, Francisco escreve: "Como crentes, pensamos que, sem uma abertura ao Pai de todos, não pode haver razões sólidas e estáveis para o apelo à fraternidade. Estamos convencidos de que só com esta consciência de filhos que não são órfãos podemos viver em paz entre nós. Com efeito, a razão, por si só, é capaz de ver a igualdade entre os homens e estabelecer uma convivência cívica entre eles, mas não consegue fundar a fraternidade."

 

A própria ética, embora autónoma, terá dificuldade em estabelecer um fundamento inabalável, sem essa abertura à transcendência. De facto, o ser humano é terrivelmente carente e, por isso, irracionalmente egoísta e está sempre sob o perigo de ser sub-repticiamente assaltado pela pergunta: porque é que hei-de fazer o bem e cuidar do outro em necessidade mesmo quando isso agride os meus interesses e me prejudica? Neste contexto, Francisco continua, derrubando a acusação feita por católicos conservadores de fomentar o relativismo: "Quero lembrar um texto memorável de João Paulo II: "Se não existe uma verdade transcendente, na obediência à qual o homem adquire a sua plena identidade, então não há qualquer princípio seguro que garanta relações justas entre os homens. Com efeito, o seu interesse de classe, de grupo, de nação contrapõe-nos inevitavelmente uns aos outros. Se não se reconhece a verdade transcendente, triunfa a força do poder, e cada um tende a aproveitar-se ao máximo dos meios à sua disposição para impor o próprio interesse ou opinião, sem atender aos direitos do outro. A raiz do totalitarismo moderno deve ser individuada na negação da transcendente dignidade da pessoa humana, imagem visível de Deus invisível, e precisamente por isso, pela sua própria natureza, sujeito de direitos que ninguém pode violar: indivíduo, grupo, classe, nação ou Estado. Nem tampouco o pode fazer a maioria de um corpo social lançando-se contra a minoria.""

 

2 A maior parte da Humanidade continua a afirmar-se religiosa. Francisco está convicto - por isso, confia e espera - de que as religiões todas, de acordo com a sua essência e razão de ser, levarão à prática, por palavras e obras, o que constitui o fundamento e o mandamento principal de todas elas: o amor, a misericórdia, a paz, a fraternidade. Por isso, acrescenta: "Como crentes das diversas religiões sabemos que tornar Deus presente é um bem para as nossas sociedades." Daí, a exigência da liberdade religiosa: "Conheceis bem a brutalidade a que pode conduzir a privação da liberdade de consciência e da liberdade religiosa, e como desta ferida se gera uma Humanidade radicalmente empobrecida, porque fica privada de esperança e de ideais." Quando se expulsa Deus da sociedade, "acaba-se adorando ídolos e bem depressa o próprio homem se sente perdido, a sua dignidade é espezinhada, os seus direitos violados".

 

O cristianismo e o islão juntos somam mais de metade da Humanidade, e Francisco confessa que, para esta encíclica, recebeu estímulo do "Documento sobre a fraternidade humana", assinado por ele e pelo Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb em Abu Dhabi em 2019, no qual se recorda que Deus "criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade e chamou-os a conviver como irmãos."

 

Dirige-se a todos, não só aos crentes. Aliás, há ateus que vivem mais de acordo com a vontade de Deus do que alguns crentes: "Quando chegar o último dia e houver luz suficiente na Terra para poder ver as coisas como são, não faltarão surpresas!"

 

3. E a inevitável pergunta sobre a violência e a opressão brutais exercidas ao longo dos séculos pelas religiões, de que o exemplo mais recente é a morte de Samuel Paty, professor francês, degolado em nome de Alá, por defender a liberdade de pensamento e de expressão? Como resposta, penso que há dois princípios imprescindíveis, irrenunciáveis.

 

3.1 Quem é a pessoa religiosa, crente? Aquele, aquela que, perante as perguntas religioso-metafísicas, inevitáveis: qual é o Fundamento último de tudo, qual é o Sentido final da minha existência, da História, do mundo, ousa entregar-se confiadamente ao Sagrado, ao Mistério último, ao Absoluto, a que também se dá o nome de Deus, do qual espera Sentido último e salvação. As religiões, essas, são tentativas de dizer e tornar presente o Mistério, o Absoluto, mas elas não são o Absoluto. Por isso, como escreveu Kant, as religiões, apesar da sua majestade, não são imunes à crítica. Pelo contrário, já que nelas há de tudo: o melhor e o pior.

 

Este princípio tem uma aplicação concreta, essencial: os Livros sagrados não são ditados de Deus, são Palavra de Deus em palavras humanas. Por isso, exigem interpretação histórico-crítica, sendo critério decisivo da sua verdade a ética a defesa da dignidade de todos, a promoção da fraternidade universal e da paz.

 

3.2 Para garantir a liberdade religiosa de todos - ter esta ou aquela religião, não ter nenhuma, mudar de religião -, exige-se a separação da religião e da política, o Estado tem de ser confessionalmente neutro, não podendo ter uma religião oficial. É o princípio da laicidade, que não laicismo - este seria a religião da não religião, ao pretender remetê-la exclusivamente para o domínio da esfera privada ou íntima, ignorando que a religião também tem lugar no espaço público.

 

Padre e professor de Filosofia.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

in DN 31.10.2020

www.dn.pt/edicao-do-dia/31-out-2020/fratelli-tutti-4-a-fraternidade-e-as-religioes--12977595.html?target=conteudo_fechado

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QUE COISA
SÃO AS NUVENS

JOSÉ
TOLENTINO
MENDONÇA

A MORTE É UMA FLOR

É sabido como, no seu “Cântico das Criaturas”, São Francisco de Assis apelida de irmãos e irmãs o sol e as estrelas, o vento e as nuvens, a água ou o fogo. Mas apenas por duas vezes nessa composição se usa o possessivo para dizer não irmã mas “nossa irmã”. A primeira é quando Francisco se refere à terra: “Louvado sejas, meu Senhor,/ pela nossa irmã, a mãe terra,/ que nos sustenta e governa,/ produz frutos diversos,/ flores e ervas.” A segunda vez é quando fala da morte: “Louvado sejas, meu Senhor,/ pela nossa irmã, a morte corporal,/ da qual homem algum pode escapar.” A terra e a morte são, de facto, duas experiências que substancialmente definem o âmago da nossa humanidade. Somos criaturas terrenas e seres destinados a realizar a experiência da morte.

Pensar o que é a morte corresponde, deste modo, a abraçar o que a vida é. A morte está connosco desde sempre e, mesmo se não nos damos conta, acompanha-nos. No poema onde Paul Celan explica que “a morte é uma flor”, refere também que ela floresce quando quer, mesmo fora da sua estação. E Celan insiste na familiaridade que cada um de nós é chamado a criar vida fora com a sua morte. Se repararmos bem, ela já “vem, grande mariposa, adornando os caules ondulantes”. Há, de facto, uma inevitável relação a trabalhar: aquela de cada um de nós com o horizonte da própria morte. Os textos bíblicos sapienciais insistem muito nisso: “Homem, recorda-te que és mortal”, “Homem, transforma o facto de teres os dias contados numa fonte de sabedoria” (cf. Sl 90:12). O que não quer dizer que alguma vez conseguiremos remover a tensão que a ideia da morte nos desperta ou que esta se deva tornar indolor e pacífica para nós.

Somos criaturas terrenas e seres destinados a realizar a experiência da morte. Pensar o que é a morte corresponde, deste modo, a abraçar o que a vida é

Por exemplo, tão ou mais doloroso do que encarar a nossa morte é sofrer a morte daqueles que amamos. Um testemunho pungente no cristianismo antigo chega-nos através da amizade que ligou dois importantes teólogos do século IV, Gregório de Nazianzo e Basílio de Cesareia. Meditando no afeto que os irmanava, Gregório escreveu que lhe parecia muitas vezes serem uma só alma em dois corpos. E no lamento pela morte de Basílio deixou uma das mais realistas descrições sobre o que o luto representa: “Se me viessem contar que um corpo poderia viver sem a sua alma eu acreditava. Mas não que poderia viver sem ti.” É realmente impossível viver sem os outros. A ausência daqueles que amamos continuará a doer-nos até ao fim. E continuaremos, até ao fim, a trabalhar interiormente esse vazio, que depois se descobre não ser só vazio mas também excedência, também companhia, pois a memória dos nossos mortos é uma pátria sagrada que não nos larga. A ela vamos buscar a força, o entendimento de nós mesmos, a palavra que nos disseram, o gesto com que nos surpreenderam, o rastro do coração que neles bateu tão forte e do qual nos sentimos para sempre herdeiros. Penso muitas vezes que Herberto Helder perdeu a mãe aos 8 anos de idade e que, quase 25 anos depois, escreveu talvez o mais belo poema da nossa literatura sobre a figura da mãe. O tempo do afastamento surge transformado em tempo para uma presença que perdura. O poema de Herberto conclui-se assim: “...o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,/ e através dele a mãe mexe aqui e ali,/ nas chávenas e nos garfos./ E através da mãe o filho pensa/ que nenhuma morte é possível e as águas/ estão ligadas entre si/ por meio da mão dele que toca a cara louca/ da mãe que toca a mão pressentida do filho./ E por dentro do amor, até somente ser possível/ amar tudo,/ e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.”

in Semanário Expresso, 31.10.2020

leitor.expresso.pt/semanario/semanario2505/html/revista-e/que-coisa-sao-as-nuvens/a-morte-e-uma-flor  

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TODOS OS SANTOS Ano A

Pe. Vitor Gonçalves

“Bem-aventurados os misericordiosos,

porque alcançarão misericórdia.”

Mt 5, 7

Santos? Nós?

O mês de novembro começa com dois dias especialmente dedicados a levantarmos os olhos e o pensamento para mais além da vida deste mundo: o dia de Todos os Santos e o dos fiéis defuntos. Ambos nos falam da esperança cristã e caracterizam-se pela universalidade. Não temos aprendido essa realidade com esta pandemia que nos recorda como todos somos contagiáveis, hospitalizáveis e mortais? Será que aprenderemos a responsabilidade pela vida de todos, pela cura de todos, pela dignidade de todos? Ou pensávamos que a frase cheia de esperança “Todos vamos ficar bem”, colocada em tantas janelas, não implicava verdadeiras mudanças de estilos de vida?

Celebramos num dia todos os homens e mulheres, de todos os tempos e lugares, conhecidos e desconhecidos que viveram o evangelho de Jesus, “olharam o mundo com amor e os / homens como irmãos. […] que Te seguiram e contigo conviveram, de modo admirável: com os que tinham fome partilharam o seu pão / olharam compadecidos as dores / do mundo e sofreram perseguição por causa da Justiça.” (Maria de Lourdes Belchior). É a multidão incontável dos “santos ao pé da porta”, na maravilhosa diversidade de dons colocados ao serviço do Reino, com mais ou menos conhecimento do Pai que enviou O Filho e nos deu o Espírito Santo, mas que “o seu presente era já quase só amor”.

E não será este caminho só para alguns? Jesus indica-o a todos, e o Concílio Vaticano II disse que essa é a verdadeira “vocação universal”. Nos caminhos de cada um, com as qualidades e defeitos que temos, como desejamos a felicidade, assim somos chamados à santidade. Não concordamos que todo o ser humano deseja ser feliz? É verdade que podemos imaginar muitos modos de sê-lo, mas, à medida que caminhamos, percebemos que o que nos parecia fácil, que não exigiu esforço, que só alimentou o egoísmo e o orgulho foram “falsas felicidades”. Assim, as “Bem-aventuranças” aparecem em “contra-corrente” com o marketing habitual das felicidades. Ser pobre no coração, reagir com humilde mansidão, saber chorar com os outros, buscar a justiça com fome e com sede, olhar e agir com misericórdia, manter o coração limpo de tudo o que mancha o amor, remear a paz ao nosso redor, e abraçar diariamente o caminho do Evangelho mesmo que nos acarrete problemas: isto é santidade (Cf Papa Francisco, Gaudete et exsultate 67-94)

Sim, na verdade não será para nós, se só contarmos com as nossas forças. Se quisermos fazer da vida uma corrida, um triunfo, uma glória pessoal. Se estivermos mais cheios das nossas capacidades do que da alegria de crescer com outros, de os amar como são (pois é assim que Deus ama), de receber a sua ajuda e, de querer ser com e como Jesus. Mas acreditem que é mesmo para todos!

in Voz da Verdade 01.11.2020

http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=9299&cont_=ver2

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 Inscrições para as Eucaristias

do XXXII Domingo do Tempo Comum

 

 Para permitir uma maior participação de fiéis, passam a ser celebradas, na Capela do Rato, duas eucaristias na manhã de domingo.  

A primeira eucaristia é celebrada às 11h; a segunda às 12.30h. 
Para melhor controle do número de presenças, pede-se que se faça uma inscrição prévia no formulário disponível aqui, para as celebrações na Capela do Rato (11h00 e 12h30) no próximo dia 8 de novembro.

http://nsi-pt.blogspot.com

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www.we-are-church.org/


26 outubro 2020

P / INFO: Crónicas, As declarações do Papa mudam (…), Grupos de estudo da Encíclica Fratelli Tutti & Capela do Rato, horários das celebrações

Frei Bento: Ninguém pode salvar-se sozinho

Pe. Anselmo: Fratelli tutti (3). Uma política sã

Cardeal Tolentino: O livro como património

Pe. Vítor Gonçalves: O amor é um projecto

 

NINGUÉM PODE SALVAR-SE SOZINHO

Frei Bento Domingues, O.P.

 

Neste tempo de desorientação não é nada enganosa a publicidade que repete: cuidar de si é cuidar de todos!

 

1. Estes não são tempos de euforia. As festas que a pretendem imitar acabam sempre em redobrada tristeza. Às loucuras das guerras e novas ameaças de guerras veio juntar-se a devastação mundial provocada pela Covid-19 que, além das pessoas que mata e dos recursos que consome, vai deixar muita gente abandonada à miséria. Por isso, não é nada enganosa a publicidade que repete: cuidar de si é cuidar de todos!

É verdade que o incómodo da máscara, da etiqueta respiratória, da limpeza das mãos, da distância física, etc. é muito irritante. Recorrer a sofismas, para dizer que não está cientificamente demonstrada a eficácia desses cuidados, não passa de um exercício de banal e oca retórica.

     Ver em todas as medidas governamentais, que tentam impedir o alastramento da pandemia, um atentado à liberdade e aos direitos humanos é uma reacção que roça a paranóia. O coronavírus não costuma respeitar as nossas reais ou fictícias arrelias.

O bom senso, que não precisa de receita médica, aconselha a boa distância entre o pânico imobilizador e o desleixo fatal. O sentido da responsabilidade, pessoal e social, fica mais barato do que o confinamento ou o internamento hospitalar.

Resta um desafio para a nossa imaginação: como reinventar e multiplicar as manifestações de afecto e de bom humor que anulem o mau distanciamento e a indiferença, sobretudo em datas de reunião familiar, como as do Natal religioso ou agnóstico?

Não está bem atribuir sempre à Covid-19 o mau costume de substituir razões e argumentos pela agressividade assassina nos meios de comunicação social e na própria Assembleia da República, considerada a pátria da democracia.

O diálogo vigoroso não precisa nem de ser açucarado nem azedo. A amizade política favorece a verdade da informação e o rigor da argumentação, nos debates que visam o bem comum entre os proponentes de projectos diferentes de sociedade. O dissenso entre esses projectos não deveria impedir os consensos, sobretudo, quando calamidades impostas geram graves crises sociais que afectam os mais pobres e débeis.

Com diz M. Correia Fernandes, director da Voz Portucalense, «a nossa imprensa, quer a mais vista lida quer a mais lida (o que não é bem a mesma coisa) tem vindo a assumir um vocabulário que pretende ser apelativo ou pretensamente expressivo, mas que apenas esconde uma mentalidade eivada de violência escondida ou disfarçada. (…) Com palavras construímos e com elas aniquilamos. Com elas apaziguamos e com elas criamos conflitos e guerras. Com o seu mau uso, podemos destruir tanto trabalho feito, tanta proximidade aniquilada, tantas relações construtivas. Quanto relacionamento humano se perdeu por palavras mal ditas!»[1].

Francisco Louçã mostra que, nos dias de hoje, a necropolítica condiciona e transforma a razão democrática de várias formas: «porventura a mais poderosa e que tenho vindo a sublinhar, é a que levanta uma cultura de ódio para se sobrepor à experiência da vida das pessoas. É a necropolítica no sentido puro: o racismo (…) Esta cultura de ódio é social quando é racial, e é sempre social mesmo quando não é racial. O racismo pode ser o seu enunciado mais poderoso, porque mobiliza o recalcado e fornece uma autodesculpabilização dos cúmplices, mas todo o discurso odioso tem por objectivo criar medo e instalar o impensável»[2].

2. A liturgia deste Domingo começa com um eloquente texto do Antigo Testamento, cheio de lições para o nosso tempo de xenofobia: «Não usarás de violência contra o estrangeiro residente nem o oprimirás, porque foste estrangeiro residente na terra do Egipto. Não maltratarás nenhuma viúva nem nenhum órfão. Se tu o maltratares, e se ele clamar por mim, hei-de ouvir o seu clamor (…). Se emprestares dinheiro a alguém do meu povo, ao indigente que está contigo, não serás para ele como um usurário: não lhe imporás juros. Se penhorares o manto do teu próximo, devolver-lho-ás até ao pôr-do-sol, porque a capa é tudo o que ele tem para cobrir a pele. Com que dormiria? E se vier a clamar por mim, ouvi-lo-ei, porque Eu sou misericordioso»[3].

Através de gerações e gerações, esquecemos algo elementar: o mundo todo foi e é feito de migrantes. Não fomos os primeiros a ocupar o território em que hoje vivemos. O desprezo ou o ódio pelo estrangeiro, em nome de um nacionalismo cego, tem tanto de antigo como de errado.

Ao pôr limites às fronteiras que o mundo ergueu, o Papa Francisco repete que os nossos esforços, a favor das pessoas migrantes que chegam, podem resumir-se em quatro verbos: acolher, proteger, promover e integrar. Devemos oferecer aos migrantes a possibilidade dum novo desenvolvimento pois, se forem ajudados a integrar-se, eles são uma bênção, uma riqueza e um novo dom que convida a sociedade a crescer.

A paz social é muito trabalhosa, artesanal. Integrar realidades diferentes é muito difícil e lento, embora seja a garantia de uma paz real e sólida. O que conta é gerar processos de encontro, processos que possam construir um povo capaz de recolher as diferenças. Armemos os nossos filhos com as armas do diálogo. Ensinemos-lhes a boa batalha do encontro[4]!

3. Da Segunda Guerra Mundial, Franz Kafka deixou-nos o seu testemunho: «A guerra, a revolução russa e a miséria do mundo inteiro, afiguram-se-me uma espécie de dilúvio do Mal. É uma inundação. A guerra abriu as comportas do Mal. As escoras, que sustentavam a existência humana, partiram-se. O porvir histórico já não repousa no indivíduo e sim nas massas. Atropelam-nos, empurram-nos, varrem-nos. Sofremos a história… Perdemos o conhecimento sem perdermos a vida. O marquês de Sade é o verdadeiro patrono da nossa época, pois não pode alcançar a alegria de viver a não ser através do sofrimento alheio, do mesmo modo que o luxo dos ricos tem de ser pago pela miséria dos pobres»[5].

No Encontro internacional em prol da paz no espírito de Assis, realizado na Praça do Capitólio (Roma), no dia 20 deste mês, foi lido um grande Apelo de Paz:

Nesta Praça do Capitólio, pouco tempo depois do maior conflito bélico de que há memória na história, as nações que se guerrearam estabeleceram um Pacto, fundado sobre um sonho de unidade que em seguida se realizou: uma Europa unida. Hoje, neste tempo de desorientação, açoitados pelas consequências da pandemia Covid-19, que ameaça a paz ao aumentar as desigualdades e os medos, digamos com força: Ninguém pode salvar-se sozinho, nenhum povo, ninguém!

Os que pensam que se podem salvar sozinhos perderam a memória desse Pacto histórico.

in Público 25.10.2020



[1] Voz Portucalense de 07.10.2020

[2] Cf. Francisco Louça, Choque e pavor serão o futuro da política? Revista Expresso de 17.10.2020

[3] Ex 22, 20-26

[4] Cf. Fratelli Tutti, nº 129-135 e 217

[5] Cf. Charles Mœller, Literatura do século XX e cristianismo, Vol. III, Esperança dos Homens, Flamboyant, São Paulo, 1959, pp. 346-347

 

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Premium Fratelli tutti (3). Uma política sã

Anselmo Borges

1 É evidente que é necessário defender o princípio essencial da liberdade, mas é igualmente necessário defender os outros dois princípios, o da igualdade e o da fraternidade. É a tríade que tem de estar sempre vinculada: liberdade, igualdade, fraternidade.

Se toda a pessoa tem dignidade inviolável e, portanto, o direito de viver com dignidade e desenvolver-se e realizar-se integralmente, impõe-se que o Estado não seja apenas o garante da liberdade, nomeadamente da liberdade de empresa e de mercado. Quem nasceu em boas condições económicas, quem recebeu uma boa educação, quem é bem alimentado, quem possui por natureza grandes capacidades... esses "seguramente não precisarão de um Estado activo, e apenas pedirão liberdade. Mas, obviamente, não se aplica a mesma regra a uma pessoa com deficiência, a alguém que nasceu num lar extremamente pobre, a alguém que cresceu com uma educação de baixa qualidade e com reduzidas possibilidades para cuidar adequadamente das suas enfermidades. Se a sociedade se reger primariamente pelos critérios da liberdade de mercado e da eficiência, não há lugar para essas pessoas, e a fraternidade não passará de uma palavra romântica".

2. Aí está, portanto, a necessidade de uma política sã e melhor. Quando hoje muitos têm uma má ideia da politica, e isso também por causa da corrupção, das mentiras, da ineficiência de muitos políticos, Francisco pergunta: “Mas poderá o mundo funcionar sem política?”, para insistir que não é possível “encontrar um caminho eficaz para a fraternidade universal e a paz social sem uma boa política”, e uma política transnacional, verdadeiramente global, para defesa do bem comum, salvaguarda da paz, preservação da natureza. Aliás, “hoje nenhum Estado nacional isolado é capaz de garantir o bem comum da própria população.” Exige-se pensar numa possível forma de autoridade mundial regulada pelo direito, que “deveria prever pelo menos a criação de organizações mundiais mais eficazes, dotadas de autoridade para assegurar o bem comum mundial, a erradicação da fome e da miséria e a justa defesa dos direitos humanos fundamentais”. Neste sentido, “é necessária uma reforma quer das Nações Unidas quer da arquitectura económica e financeira internacional, para que seja possível uma real concretização do conceito de família de nações.”

3. Neste quadro, Francisco apela ao exercício da grande  caridade, “a caridade política”, que  gera processos sociais de fraternidade e justiça para todos: “Convido uma vez mais a revalorizar a política, que é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas de caridade, porque busca o bem comum.” O amor não se exprime só nas relações íntimas e de proximidade, “também nas macrorrelações como relacionamentos sociais, económicos e políticos”. O amor implica a amabilidade no trato, que leva alguém a dizer uma palavra de ânimo e também palavras como “com licença”, “desculpe”, “obrigado”; o amor está vivo na proximidade de “alguém que ajuda um idoso a atravessar um rio, e isto é caridade primorosa; mas o politico constrói-lhe uma ponte, e isto é também caridade. É caridade se alguém ajuda outra pessoa fornecendo-lhe comida, mas o político cria-lhe um emprego, exercendo uma forma sublime de caridade que enobrece a sua acção política.” 

Para honrarem actividade tão nobre, os políticos não podem pensar só nas sondagens e numa mera busca de poder. Precisam de amor, coragem, lucidez, a favor de uma política da “globalização dos direitos humanos mais essenciais”, para uma humanidade justa, livre, num mundo onde todos possam viver em paz e realizar adequadamente a sua dignidade. Para isso, ajudará também que façam a si mesmos “estas perguntas, talvez dolorosas: Quanto amor coloquei no meu trabalho? Em que fiz progredir o povo? Que marcas deixei na vida da sociedade? Quanta paz social semeei? Que produzi no lugar que me foi confiado?”

4. Na impossibilidade de apresentar todos os domínios sobre os quais deve incidir esta actividade da “amizade social” universal, indico sumariamente alguns.

4. 1. Francisco não se cansa de insistir na necessidade primeira de “assinar um pacto educativo global para fazer frente à virulenta pandemia do descarte”.

4. 2. Não se assegura a dignidade das pessoas através de subsídios. “Ajudar os pobres com dinheiro deve ser sempre uma solução provisória para resolver uma urgência. O grande objectivo deveria ser sempre permitir-lhes uma vida digna através do trabalho”. Porque “não existe pior pobreza do que a que priva do trabalho e da dignidade do trabalho”. O verdadeiro caminho para a paz: terra, tecto e trabalho para todos.

4. 3. Contra a lógica da guerra, impõe-se um “diálogo perseverante e corajoso”. “É muito difícil hoje defender  critérios racionais, amadurecidos noutros tempos, para falar de uma possível ‘guerra justa’”. Com Paulo VI na ONU Francisco clama: “Nunca mais a guerra!”. E pede que com o dinheiro gasto em armas se crie um Fundo Mundial contra a fome, que é uma tragédia e uma vergonha. A pena de morte deve ser abolida em todo o mundo.

4. 4. “O ideal seria evitar as migrações inúteis e, para isso, seria necessário criar nos países de origem a possibilidade efectiva de viver e realizar-se na dignidade.” Quando isso não é possível, é necessário avançar com os quatro verbos: “acolher, proteger, promover e integrar”.

4. 5. É essencial o conceito de ecologia integral, para entender a conexão desta encíclica com a Laudato Sí. (Continua).

Padre e Professor de Filosofia

in DN 24.10.2020

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/17-out-2020/fratelli-tutti-2-uma-outra-economia-12926786.html

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As declarações do Papa mudam a posição da Igreja sobre a homossexualidade?

Anselmo Borges

Padre e Professor de Filosofia

 

SIM 1. Dá que pensar: Francisco publicou uma encíclica histórica, “Fratelli Tutti” (todos irmãos), com orientações proféticas para o futuro de uma Humanidade ameaçada e desorientada, e ela passou quase despercebida; veio agora declarar que os casais homossexuais têm direito a uma cobertura legal, e isso é uma das maiores notícias. Entre outras coisas, isto revela bem a obsessão sexual com que a Igreja tem vivido e, por isso, a necessidade de pôr fim a essa obsessão, para deixar de ser notícia fundamentalmente por causa do sexo: o celibato (quando acaba essa lei que não vem de Jesus?), a misoginia (como se pode continuar a negar a igualdade de direitos às mulheres?), divorciados recasados (felizmente, Francisco abriu já a porta à possibilidade da comunhão), pedofilia (como foi possível tolerar essa infâmia?). É claro que não vale tudo, mas, com o fim desta obsessão, a Igreja ficará liberta para o anúncio e prática do essencial: o Evangelho, a maior mensagem de felicidade, libertação e dignificação.

 

2. Para mim, não foi notícia inesperada esta defesa de proteção legal da união civil de pessoas do mesmo sexo. Francisco quer uma Igreja de inclusão, que não discrimina, mas acolhe e alivia no sofrimento. Aliás, trata-se de união civil, não do sacramento católico do matrimónio. E penso que Francisco não é, em princípio, favorável à adoção por casais homossexuais, muito menos, a ter filhos através de barrigas de aluguer.

 

3. Não fiquei surpreendido, mas reconheço que foi uma notícia que trouxe grande alegria e felicidade a muitos com essa tendência, porque se sentiam excluídos, sem lugar na Igreja. Também são filhos de Deus e muitos pais vão sentir-se mais confortados.

 

Trata-se de um passo gigantesco, quando se pensa na doutrina oficial da Igreja, expressa no Catecismo e no Direito Canónico e no que disseram Papas anteriores, excluindo explicitamente a legalização das uniões homossexuais. É claro que as declarações de Francisco mudam e ajudarão a mudar a posição da Igreja em relação a este tema, nomeadamente quando se pensa em Conferências Episcopais que pretendem a cura homossexual com pseudoterapias ou em bispos, como na Polónia, duríssimos contra os homossexuais ou, pior, no Uganda, onde bispos estão ao lado de leis que penalizam a homossexualidade...

Julgo que, com os bispos alemães, se deveria pensar numa bênção da Igreja para estas uniões civis.

 

José Maria Brito

Padre jesuíta

 

NÃO Vendo as reações ao que o Papa disse sobre as uniões civis homossexuais, recordava o paradoxo do elixir da eterna juventude cantado por Sérgio Godinho: “Esse que quer que tudo mude para que tudo fique igual.”

 

Pensava ainda que talvez se passe algo inverso com o elixir da tradição cristã, que entende que nada deve mudar para que nem tudo fique igual.

 

O que é que não muda? Não muda o pensamento do Papa Francisco, nem a doutrina da Igreja. Como arcebispo de Buenos Aires, Bergoglio admitiu que fossem reguladas as “convivências civis”. Tal expressão foi usada no contexto da discussão da lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo e com o intuito de marcar uma diferença entre aquelas uniões e o casamento civil ou religioso, garantindo proteção a essas pessoas.

 

Bergoglio era claro: o casamento deveria ficar reservado para a relação entre homem e mulher. Já como Papa reafirmou o mesmo numa entrevista ao sociólogo Dominique Wolton publicada em livro (“Um Futuro de Fé”, 2018). Francisco mostra-se também contrário à adoção por parte de uniões homossexuais.

 

E o que é que não fica igual? Na entrevista a Wolton, Francisco refere-se à forma como avança a doutrina: “Na tradição dinâmica, o essencial permanece, não se altera, antes cresce. Cresce na explicitação e na compreensão.” Para o Papa esse crescimento dá-se através do diálogo. O diálogo tem passado no seu pontificado por uma intencional atitude de acolhimento que não é mera simpatia. Acolher implica expor a proposta da Igreja à realidade, deixando-se interpelar por ela, promovendo em cada situação o bem possível. Não é um exercício teórico, é uma prática, um modo de proceder que o Papa encarna nos seus gestos.

 

No documentário “Francesco” em que surgem as declarações de Francisco, é dada a conhecer a história de Andrea Rubera que com o parceiro adotou três crianças.

 

Numa carta entregue ao Papa, Andrea expôs o desejo de educar as crianças como católicas na paróquia e o seu receio de não serem acolhidos. Francisco telefonou-lhe comovido pedindo que levassem as crianças à paróquia. Segundo a experiência de Rubera, não mudando a doutrina, o Papa convida a uma mudança de olhar sobre os homossexuais, não os metendo numa categoria. O Papa expõe assim a proposta da Igreja à realidade das pessoas, permitindo que a doutrina toque essa realidade e seja tocada por ela. É neste diálogo que a doutrina cresce e nem tudo fica igual.

É um passo gigantesco, quando se pensa na doutrina da Igreja e no que disseram Papas anteriores

Não muda o pensamento do Papa Francisco nem a doutrina da Igreja

in Expresso, 24.10.2020 pg2

pdf.leitor.expresso.pt/html5/reader/production/default.aspx?pubname=&pubid=225434b9-290e-4627-9341-cffb4d1fc475

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QUE COISA
SÃO AS NUVENS

JOSÉ
TOLENTINO
MENDONÇA

O LIVRO COMO PATRIMÓNIO

QUEM INVENTOU O LIVRO INVENTOU UMA CERTA FORMA DE PRODUZIR HISTÓRIA E TAMBÉM A FIGURA DE LEITOR QUE AINDA SOMOS

Estamos, diz-se, a chegar ao fim da era do livro. E não porque os livros deixaram ou deixarão de existir de uma hora para outra, no período histórico das nossas vidas: esperamos que eles se continuem a escrever e a ler, a publicar, a apoiar e a conservar por longo tempo. O que acontece, porém, é que, quer como artefactos, quer como transmissores de uma determinada conceptualização moral da vida, os livros deixaram de representar, como defendia George Steiner já nos anos 60 do século passado, o principal foco de energia da nossa civilização. Nessa função, o livro foi substituído pelo ecrã. Efetivamente, cada um de nós passa hoje mais tempo diante de um ecrã que diante de um livro. E são múltiplos os ecrãs que massivamente se disseminam nos nossos quotidianos e os moldam, veiculando assim o impacto da revolução digital na nossa época e a interferência, sempre maior, da tecnologia na comunicação humana. Ora, esse foi o lugar que, por séculos, esteve reservado à página e ao texto, manuscrito ou impresso. Na autorrepresentação que o mundo contemporâneo faz de si, o livro, por exemplo, já não é a grande metáfora, como era no século XII, quando o teólogo e místico Hugo de São Vítor defendia que toda a criatura deste mundo é como um livro; ou como era ainda no final do século XIX, quando Mallarmé imaginava o livro como uma estrutura omnicompreensiva, uma espécie de coágulo total das escrituras decifráveis e indecifráveis do homem e do universo.

Uma bicicleta acaba por ter duas rodas e um eixo. Do mesmo modo, por mais variações que se introduzam, o que teremos entre as mãos continuará a ser um livro

É verdade que há quem diga que mais do que falar em crepúsculo, deveríamos falar de transformação, pois o que está em ato é simplesmente uma alteração do suporte em que o livro é transmitido e não do livro propriamente dito. A forma atual do livro em papel é uma etapa de uma história mais longa que começou pelos textos gravados em pedras, em tábuas de argila e em rótulos, história que continuará o seu caminho. Nesse sentido, Umberto Eco mostrava-se confiante dizendo que o livro integrava aquela tecnologia irremovível representada pela roda, pela faca, pela colher, pelo martelo, pela panela ou pela bicicleta. Por mais que os designers invistam em transformar este ou aquele particular será sempre possível reconhecer o que é uma faca ou o que é uma colher. Uma bicicleta acaba por ter duas rodas e um eixo. Do mesmo modo, por mais variações que se introduzam, o que teremos entre as mãos continuará a ser um livro.

Não podemos esquecer, porém, que a civilização que inventou o livro tal como até aqui o conhecemos, inventou também as condições requeridas para a sua leitura e que essas nos modelaram antropologicamente durante séculos e constituem um património cultural que precisamos de preservar. Pois quem inventou o livro inventou o silêncio da leitura; inventou essa forma íntima de temporalidade que torna o encontro com o livro indissociável do encontro connosco próprios; inventou a atenção e a curiosidade; inventou um regime social onde a atividade intelectual era admitida; inventou o direito universal à alfabetização; inventou o indivíduo e a vida privada; inventou a confiança na consistência da linguagem e as bibliotecas; inventou os sistemas críticos e hermenêuticos que garantem não só a legibilidade dos livros, mas a compreensão do mundo; inventou o humanismo e a liberdade de expressão, que é sempre inseparável da liberdade de ser. O livro acompanhou o nascimento e expansão das línguas modernas do Ocidente, e assistiu ao desenvolvimento das suas possibilidades expressivas. Quem inventou o livro inventou uma certa forma de produzir história e também a figura de leitor que ainda somos. Temo-nos de perguntar o que podemos fazer para valorizar este extraordinário património.

in semanário Expresso, 24.10.2020 Pg 170

https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2504/html/revista-e/que-coisa-sao-as-nuvens/o-livro-como-patrimonio

 

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À PROCURA DA PALAVRA

Pe. Vítor Gonçalves

DOMINGO XXX COMUM

“Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração…

Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”

Mt 22, 37.39

 

O amor é um projecto

 

Há um diálogo no musical “Um violino no telhado”, entre um casal judeu a propósito das suas filhas porem em causa a tradição dos casamentos, que os leva a descobrir, passados 25 anos, que se amam. Nunca é tarde para descobrir que os gestos simples de cada dia, a fidelidade nos bons e nos maus momentos, são o amor em acto; que podíamos dizer mais frequentemente, mas o importante viver constantemente. De facto, o amor como palavra e como ideia pode ser bonita, contudo, ele só existe como verbo, feito dádiva e entrega, corpo e alma que sai de quem ama para quem é amado. Como dizia Pedro Casaldáliga, o bispo brasileiro recentemente falecido: “No final do caminho perguntar-me-ão: “Viveste?”, “Amaste?”… E eu, sem dizer nada, abrirei o coração cheio de nomes…”.

Não encontraremos no mais fundo de cada pessoa infeliz a falta de sentir-se amado e de amar? E se a primeira experiência nos unifica e fortalece, ela não depende substancialmente de nós. É dom daqueles que nos rodeiam, do nascer ao morrer, de muitas circunstâncias que não dominamos. Mas quanto a amar, essa é uma escolha que depende de cada um, por vezes natural como respirar, ou encantarmo-nos com a beleza que nos rodeia, mas por vezes a exigir escolhas difíceis e comprometedoras. Pode educar-se para amar? Sim, e não será esse o maior objectivo da educação? E quem não é amado não é capaz de amar? Não; porque o amor é semeado no íntimo de todos. É mesmo o maior dom que é oferecido a todos, capaz de se multiplicar sempre que o damos a outros.

Jesus ao unir o amor a Deus ao amor ao próximo, sintetizando a extensa lista de mandamentos e preceitos judaicos, ainda hoje nos interpela. Amar o próximo que vemos é o modo de amar Deus que não vemos. É aprender com o próprio Jesus que deu cada instante da sua vida ao Pai e aos irmãos, até no-la dar totalmente na cruz. Como Ele não podemos ficar numa atitude de indiferença, despreocupação ou esquecimento dos outros. Diante de qualquer pessoa a atitude fundamental é amá-la. O amor do próximo é um apelo, uma necessidade, uma urgência. Sem perder tempo em estabelecer uma “lista de próximos”, como nos desafia o “bom samaritano”; antes, criando disponibilidade para “os mais pequeninos” com quem Jesus se identifica.

Mais do que um “slogan”, o amor é um projecto. É o maior projecto de Deus, que é a fonte do Amor. Aprovado na generalidade e na especialidade, com todos os meios para se erguer em cada dia e em cada situação. Basta que nos demos a ele. E recordo outra imagem cinéfila: o discurso de Charlie Chaplin no final do filme “O Grande Ditador”. Sem nunca falar de amor, concretiza-o repetidamente: “Todos nos queremos ajudar uns aos outros. O ser humano é assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo — não para seu sofrimento.[…] Mais do que de inteligência, precisamos de gentileza e bondade.[…]Você tem o amor da humanidade no coração.”

in Voz da Verdade, 25.10.2020

http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=9285&cont_=ver2

 

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Grupos de estudo da Encíclica Fratelli Tutti

 

Uma comunidade feita de pequenas comunidades

O tempo que vivemos foi propício ao afastamento e isolamento das pessoas que, em virtude do confinamento, se recolheram nas suas casas e famílias, defendendo-se e protegendo-se de um vírus que viria a impor uma mudança tão radical nas nossas vidas.

Esta situação inesperada teve um impacto directo nas comunidades, nomeadamente na nossa, com consequências ao nível do crescimento da solidão, dispersão e aparecimento de muitas mais fragilidades…

O surgimento da Encíclica Fratelli Tutti veio no momento certo: início do ano pastoral, apresentando-se assim como proposta de trabalho, ótimo programa, não só pelo conteúdo em si, a fraternidade, mas também porque poderá ser um potencial projeto de crescimento pessoal/ comunitário.

Nesta conjuntura, e na tentativa de nos adaptarmos aos tempos que vivemos, procurando ultrapassar a dificuldade de nos juntarmos em grande grupo, e tendo em mão uma nova Encíclica, surgiu a ideia de nos organizarmos de uma outra forma, para refletir sobre este documento que tão oportunamente nos é oferecido.

Uma vida mais fraterna para todos é a proposta do Papa Francisco. Uma tarefa tão importante requer da nossa parte um tempo de leitura e de maturação diferentes.

Numa tentativa de fazermos o caminho certo, podemos adotar um modelo de trabalho mais adequado, o de Círculos de Estudo, baseado na formação de pequenos grupos que se organizam com o propósito de reflexão conjunta, mais ativa.

Sabendo da importância desta carta, para uma reavaliação do modo como temos vivido, os Círculos de Estudo são uma metodologia de funcionamento que pode permitir uma melhor apropriação do seu conteúdo, através de uma reflexão mais aprofundada, no sentido de um processo de mudança interior. Acresce dizer que este modelo possibilita em simultâneo o desenvolvimento pessoal e o envolvimento de toda a comunidade, não deixando ninguém de fora, e ajudando ao seu crescimento.

Nos tempos atuais, este modo de organização pode ter uma importância acrescida porque promove a aproximação das pessoas que se encontram mais isoladas, ajudando a criar um sentido de pertença…

Não será esse um dos objetivos da Encíclica? Apresentar novos caminhos, mais voltados para os outros e mais inclusivos, começando pelos que nos são mais próximos, porque não tentar?

Para facilitar a organização dos grupos apresentam-se algumas sugestões:

Os grupos podem ter entre 4 a 8 participantes. A sua formação pode ser feita pelos próprios elementos, de forma espontânea. No caso de haver dificuldade de encontro, pede-se o envio do nome, assim como respetivo contacto, para o email da Capela (capeladorato@gmail.com), para que se possa apoiar na formação dos grupos. Importante mesmo é que ninguém fique de fora…

Finalmente, pede-se a informação da existência do grupo, para contacto futuro.

Inscreva-se aqui para receber as notícias da Capela do Rato no seu email. | Consulte aqui a nossa Política de Proteção de Dados.

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Inscrições para as Eucaristias da Solenidade de

Todos os Santos

 Para permitir uma maior participação de fiéis, passam a ser celebradas, na Capela do Rato, duas eucaristias na manhã de domingo. 

A primeira eucaristia é celebrada às 11h; a segunda às 12.30h. 

Para melhor controle do número de presenças, pede-se que se faça uma inscrição prévia no formulário disponível aqui, para as celebrações na Capela do Rato (11h00 e 12h30) no próximo dia 1 de novembro.


www.capeladorato.org/2020/10/25/inscricoes-para-as-eucaristias-da-solenidade-de-todos-os-santos/?utm_term=Inscricoes+para+as+Eucaristias+da+Solenidade+de+Todos+os+Santos&utm_campaign=Capela+do+Rato&utm_source=e-goi&utm_medium=email&eg_sub=5f23d43415&eg_cam=3176fac683a26c2e56ef3b9ad320caf7&eg_list=4

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