13 outubro 2019


P / INFO: Crónicas
Frei Bento: Em mudança acelerada

Pe. Anselmo: Sínodo para a Amazónia: um mini-Concílio Vaticano II
 Pe. Tolentino: John Henry  Newman
Pe. Vitor: No lugar do outro



EM MUDANÇA ACELERADA
Frei Bento Domingues, O.P.
Se a sociedade vive em mudança acelerada, a hierarquia eclesiástica continua em velocidade reduzida ou, como se diz, a “passos de caracol”.
1. Poderá a hierarquia da Igreja católica mudar não apenas de orientação, mas sobretudo a velha prática de adiar soluções urgentes para um futuro indefinido?
A pergunta é antiga e percorre toda a história de reformas dentro da Igreja. Eu próprio conheço esse lamento desde a minha juventude. Quando agora se diz que o Papa Francisco está a alterar perigosamente o rumo da Igreja, provocando muitas resistências e ameaças de cisma, há sempre quem acrescente, com algum cepticismo: são maiores as mudanças no discurso do que na realidade dos factos. Mais uma vez, está a perder-se um momento de graça divina e de inadiável necessidade eclesial.
Isto sabe a conversa de velhos: velhos conservadores e velhos progressistas. Não esqueço, no entanto, que foi de um velho, minado por doença incurável, que saíram as palavras e os gestos mais audaciosos no século XX. Foram os do papa João XXIII. Os seus sucessores não perceberam que a autêntica virtude da prudência abre luz verde à audácia das decisões ponderadas, superando a linguagem do oportuno e inoportuno. Para trás não há paz e não é do império da mesmice que se podem esperar soluções inéditas.
Se olharmos para a fotografia do Sínodo dos bispos dedicado ao tema os jovens, a fé e o discernimento vocacional, 2018, temos a evidência de que não foi um sínodo de jovens. Foram bispos com idade de pais e avós a tentar entender os jovens sem, talvez, se darem conta que já não se trata dos jovens que eles tinham conhecido quando trabalharam – os que trabalharam – com essas idades. A cultura, que só pretende garantir o futuro repetindo o passado, não entende o espírito cristão: Eis que eu faço novas todas as coisas[1].
Importa perceber que estamos noutro mundo que é necessário conhecer e assumir, se pretendermos animá-lo de uma novidade mais profunda que supere esta Era da mera produção, do consumo e do divertimento.
Tomo, como parábola desta situação, um fragmento do texto de António Guerreiro, A geração dos filhos sem pais[2].
Também os Bispos se reuniram numa época em que «entre a geração dos alunos e a dos professores existe um fosso, um hiato enorme que não é possível disfarçar e tem terríveis consequências. Esse hiato já seria grande e nefasto em quaisquer circunstâncias; ele é colossal sob as novas condições de transmissão do saber, da experiência, dos costumes, dos códigos de comportamento, em que se acelerou de maneira vertiginosa o tempo da inflexão e interrupção de uma cadeia hereditária.
O “antigamente” já não é o tempo dos avós, é o tempo da nossa experiência: quem entrar hoje numa escola depois de um interregno de dez anos (dantes, considerava-se que as gerações se sucediam de 30 em 30 anos) entra num mundo diferente daquele que conheceu. Ou melhor, só não entra num mundo completamente diferente porque os professores são os mesmos, e quase todos a pensar na reforma. Quem não sentiu já, regressando à escola ou à universidade por onde passou, a estranheza inquietante que isso provoca?».
2. Na cerimónia em que o Bispo José Tolentino Mendonça foi incluído no colégio cardinalício, sendo um dos membros mais novos, o espectáculo que as televisões ofereceram era o de termos entrado num mundo em que a respeitabilíssima terceira idade é prevalecente no governo da Igreja.
No dia seguinte, foi a abertura do Sínodo sobre a Amazónia. O espectáculo não mudou. A homilia do Papa Francisco é, no entanto, de antologia: «Se tudo continua igual, se os nossos dias são pautados pelo “sempre se fez assim”, então o dom desaparece, sufocado pelas cinzas dos medos e pela preocupação de defender o status quo». Teve o cuidado de lembrar que Bento XVI já tinha escrito: «a Igreja não pode, de modo algum, limitar-se a uma pastoral de “manutenção” para aqueles que já conhecem o Evangelho de Cristo. O ardor missionário é um sinal claro da maturidade de uma comunidade eclesial».
Francisco sublinhou: «Porque a Igreja está sempre em caminho, sempre em saída; nunca fechada em si mesma. Jesus veio trazer à terra, não a brisa da tarde, mas o fogo».
Não se trata do fogo devastador da Amazónia, mas da virtude da prudência. Esta não pode ser confundida com atitudes de timidez ou de medo que paralisam, mas de audácia. É a virtude das decisões corajosas que se impõem a quem tem responsabilidades de governar e não de paralisar. O melhor será ler o texto na íntegra[3].
A corajosa homilia do Papa, na abertura do Sínodo dos Bispos sobre a Amazónia, situa-se, no entanto, num mundo de pais e avós.
Se a sociedade vive em mudança acelerada, a hierarquia eclesiástica continua em velocidade reduzida ou, como se diz, a “passos de caracol”, sobretudo quando se trata de abordar questões que exigem soluções urgentes.
Se não nos resignarmos a uma Europa auto centrada, preocupada apenas com a desaceleração económica mundial que a vai afectar e donde desertam as interrogações mais profundas, acerca do sentido da vida pessoal e colectiva, colaboramos num mundo sem alma, sem compaixão, miseravelmente egoísta.
3. Não me parece que, para já, a religião esteja em condições de oferecer a energia necessária para levantar essas questões de fundo, que só podem nascer do reconhecimento da dimensão transcendente da vida humana.
A situação religiosa dos jovens, na Europa, está descrita num estudo recente da Universidade inglesa St. Mary, de Londres (2014-2016). É uma situação impressionante em países de tradição cristã. Em 12 países deste continente, a maioria dos jovens, entre os 16 e 29 anos, admitem que não são crentes e que nunca ou quase nunca vão à Igreja ou rezam.
A República Checa é o país menos religioso da Europa: 91% dos jovens confessa que não tem qualquer filiação religiosa. A seguir vem a Estónia, a Suécia, os Países Baixos onde a percentagem dos jovens sem religião está entre os 70% a 80%. Também noutros países, França, Espanha, se pode observar o declínio da crença religiosa.
Nesta crónica não podemos enumerar a situação de todos os países. O responsável deste estudo, Stephen Bullivant, perante este e outros dados, declarou que na Europa a religião está a morrer.
Como cristão não penso que seja o fim. É um desafio para a chamada Nova Evangelização. Sei que a situação actual dos ministérios ordenados da Igreja Católica não está em condições de dinamizar uma resposta a esse desafio. A ordenação de homens casados e de mulheres é indispensável, se não repetirem os caminhos que não levam a lado nenhum, mas o fim de um mundo pode e deve ser para as pessoas de fé e de esperança activa, o nascimento de um outro.
Ao terminar esta crónica recebi a notícia da morte da Manuela Silva, uma das mais empenhadas militantes católicas das causas sociais e da renovação da Igreja em Portugal.
in Público, 13. 10.2019
https://www.publico.pt/2019/10/13/sociedade/opiniao/mudanca-acelerada-1889585


[1] Apocalipse 21, 5
[2] Público, Ípsilon, 04.10.2019
[3] Homilias no site do Vaticano

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Sínodo para a Amazónia: um mini-Concílio Vaticano II
Anselmo Borges
Padre e Professor de Filosofia

Começou em Roma no passado dia 6 e estará activo até ao próximo dia 27 o Sínodo para a Amazónia. Estão presentes 185 Padres sinodais, mas participam também membros da Cúria, religiosos e religiosas, auditores e auditoras, peritos, membros de outras confissões religiosas, convidados..., o que perfaz, em números E se dirija directamente só a uma zona determinada do planeta, ainda que extensíssima e tocando nove países (Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa), a sua temática -"Amazónia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral" - é universal e vai marcar este pontificado com um antes do Sínodo e um depois. Penso que estaremos num processo de recuperação da dinâmica do Concílio Vaticano II, um dos acontecimentos mais importantes, se não o mais importante, do século XX, para a Igreja e para o mundo. O Papa Francisco acentua que a sua missão fundamental é criar "processos" no tempo, irreversíveis, sem possibilidade de voltar atrás, a caminho de objectivos essenciais, que já vêm do Vaticano II.
2. Destaco quatro desses pontos fundamentais, a debater no Sínodo e que influenciarão a Igreja universal.
2. 1. Logo na terminologia. O Papa quer uma Igreja sinodal, isto é, na qual, como diz o étimo da palavra sínodo, se faça o caminho juntos. Repete constantemente: "a Igreja somos nós todos". Se é assim, o que é de todos deve ser partilhado por todos. Na véspera da abertura do Sínodo, aquando da imposição do barrete cardinalício aos novos cardeais, lembrou-lhes que não são príncipes, e pediu-lhes "lealdade" e "compaixão", também no sentido etimológico da palavra: partilhar as alegrias, as tristezas e as angústias de todos, a começar pelos "descartados", com os quais devem ser samaritanos, e que evitem ser "funcionários". Um desses novos cardeais, Cristóbal López, arcebispo de Rabat, sabe que assim deve ser, ao afirmar: "Os cristãos são todos iguais, o ser bispo ou cardeal não nos torna superiores a ninguém". Na Igreja, não pode haver duas classes: os clérigos e os leigos, pois toda a Igreja é uma Igreja de iguais, ministerial.
2. 2. Francisco propugna por uma "ecologia integral". Disse-o na sua encíclica Laudato Si, que fica para a História. É a mesma lógica economicista que está na base da depredação da mãe Natureza, a nossa casa comum, e da injustiça social, do escândalo da pobreza e da exclusão de multidões de homens e mulheres. Quando é que se entenderá que o grito dos descartados e o grito da mãe Terra devastada são o mesmo grito e que os pecados ecológicos são pecados contra Deus e contra a Humanidade?
Quando se olha para a situação da região panamazónica, percebe-se a urgência de mudar de rumo. Aliás, um conjunto de cientistas de vários países, que inclui o Prémio Nobel Carlos Nobre, acaba de entregar ao Sínodo e dar a conhecer um documento, "Um quadro científico para salvar a Amazónia" (assinam 44 especialistas), no qual se lê que "hoje a Amazónia e os seus habitantes estão ameaçados de extinção, representando a sua agonia uma ameaça dramática para o bem-estar humano, da nossa geração e das gerações futuras." Constatando que a Amazónia "possui uma imensa riqueza natural, cultural e singular diversidade", sendo "o maior repositório de biodiversidade do mundo", apelam "aos governos, às empresas, à sociedade civil e aos povos de boa-fé de todas as partes do mundo para se unirem num esforço comum pelo bem da Humanidade e da Terra hoje e no futuro."
Aí está um desses problemas que exigem o esforço de toda a comunidade internacional e uma nova ordem mundial, no quadro de uma Governança global, já que todos são afectados, sem excepção.
2. 3. Uma Igreja com rosto amazónico.
Muitas vezes me interrogo sobre qual seria a nossa compreensão de Jesus e do Evangelho, se, logo no princípio, a evangelização, em vez de partir de Jerusalém para Atenas e Roma, isto é, para a cultura helenista, tivesse derivado para a China ou para a Índia, por exemplo. A linguagem e a conceptualidade que utilizamos seriam diferentes; por exemplo, o Credo tem muitos conceitos gregos, de tal modo que quando se diz sobre Jesus Cristo: "gerado, não criado, consubstancial ao Pai", quem entende hoje esta linguagem?

Que é que isto quer dizer? O Evangelho é o mesmo, mas, uma vez que a nossa identidade é dada numa determinada cultura, sempre aberta, a mensagem de Jesus e a fé devem inculturar-se, atender às diferentes culturas, para que possam ser compreendidas e vividas. Juan Carlos Scannone, um dos teólogos de referência e antigo professor do Papa Francisco, acaba de afirmar, contexto do Sínodo: "A fé faz-se cultura e, portanto, não é a mesma coisa ser cristão na Amazónia ou na Espanha, Argentina, Índia ou África. Quando se adoptam formas culturais, há ao mesmo tempo um movimento de encarnação, de purificação e de transformação. Penso que esse momento de inculturação é muito importante, sobretudo nesses povos originários da Amazónia, que são muito diferentes. E, por outro lado, também a sinodalidade, entendida como uma grande orquestra na qual cada um toca um instrumento diferente mas a partir da unidade. A Igreja manifesta-se como uma comunhão e um caminhar juntos." As Igreja locais são uma porção da Igreja universal e, com a sua identidade cultural, histórica, litúrgico-celebrativa, canónica, enriquecem-na. Há um só Povo de Deus, numa pluralidade de rostos.
Dou exemplos. Pensando na ecologia, não terão esses povos uma lição a dar-nos na sua relação contemplativa e familiar com a Natureza, que não pode ser reduzida a um reservatório de energias e possíveis negócios a explorar? Quanto à celebração litúrgica, concretizando quanto à Eucaristia, pergunto: "Se o pão de trigo e o vinho de uva não são elementos essenciais dessas culturas, como o são na cultura mediterrânica, a celebração da Eucaristia não deverá também adaptar-se?"
Já na abertura do Sínodo, mas isto é menos importante e quase folclórico, Francisco queixou-se: "Deu-me muita pena ouvir aqui dentro um comentário a dar piadas de mau gosto sobre esse senhor piedoso que na Missa levou, com penas na cabeça, as oferendas ao altar. Digam-me: qual é a diferença entre levar penas na cabeça e o tricórnio que usam alguns funcionários dos nossos Dicastérios?", e arrancou um aplauso dos presentes na sala. Aqui, entre parêntesis, permito-me um comentário: penso sinceramente que, nos tempos que correm, já é altura de acabar com tanta pompa aquando da criação de cardeais, e, sinceramente, olhando para o barrete e vestimentas cardinalícias, ouvi muita gente, sobretudo jovens, a reclamar algum decoro, para se não cair no ridículo. Já não se trata só de uma questão de simplicidade...
2. 4. Ordenação de homens casados e os ministérios das mulheres. No Instrumentum Laboris (instrumento de trabalho) para o Sínodo, contempla-se a possibilidade de ordenar como padres homens casados, preferencialmente indígenas, respeitados e indicados pela comunidade, e também identificar o tipo de ministério oficial que pode ser conferido à mulher. Apesar da indignação dos rigoristas e ultraconservadores, o tema está a ser debatido no Sínodo e estou convencido de que essa possibilidade se vai tornar realidade, primeiro para a Amazónia e, lentamente, estender-se-á a toda a Igreja.
Afinal, não foi isso que aconteceu na Igreja durante o primeiro milénio? A lei do celibato obrigatório só começou a impor-se no século XI. Mesmo depois do Concílio de Trento, no século XVI, a lei não se estendeu às Igrejas católicas orientais e, actualmente, os pastores protestantes que se convertem ao catolicismo continuam com as suas famílias. Há uma pergunta essencial: porventura não é a Eucaristia o centro da Igreja? Sendo assim, o que deve estar em primeiro lugar: a manutenção da lei do celibato ou a possibilidade da celebração eucarística? No Novo Testamento, por exemplo, na Primeira Carta a Timóteo, lê-se: "É necessário que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, ponderado, de bons costumes, hospitaleiro, capaz de ensinar, que não seja dado ao vinho, que governe bem a própria casa, mantendo os filhos submissos, com toda a dignidade. Pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará ele da Igreja de Deus?"
Na presente situação, opor-se a esta possibilidade é um suicídio.
E quanto às mulheres? Estão 35 a participar activamente no Sínodo e reclamam poder votar o documento final. Poderá a Igreja continuar a discriminá-las? Não é verdade que Jesus tinha discípulos e discípulas? Não foi a Maria Madalena que Jesus se manifestou após a sua morte para que fosse anunciar aos outros que está vivo, que Ele é o Vivente, a ponto de São Tomás de Aquino, entre outros, lhe chamar a "Apóstola dos Apóstolos"? No princípio, não houve mulheres cristãs que presidiram à Eucaristia? Que razões se opõem à sua ordenação? Só para dar um exemplo, cito o maior teólogo católico do século XX, Karl Rahner, que tive o privilégio de ter tido como professor: "Sou católico romano e, se a Igreja me disser que não ordena mulheres, aceito-o por fidelidade. Mas, se me der cinco razões e todas elas são falsas face à exegese e à teologia, tenho que protestar. Penso que o Magistério que apela para essas razões falsas não acredita no que diz ou não sabe ou mente ou estas coisas todas juntas. Além disso, a Igreja é infalível em questões de fé e moral, e o tema da ordenação das mulheres não é de fé, nem de costumes, mas de administração". O Cardeal José Policarpo também teve problemas porque afirmou o mesmo: que teologicamente nada se opõe à ordenação de mulheres. Aliás, digo eu, há uma razão de fundo: é uma questão de direitos humanos e Deus não pode ir contra os direitos humanos.
in DN, 13.10.2019
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QUE COISA SÃO AS NUVENS
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
JOHN HENRY NEWMAN
CRIADO CARDEAL POR VONTADE DO PAPA LEÃO XIII, O MOTE DO SEU ESCUDO CARDINALÍCIO ERA “COR AD COR LOQUITUR”, “O CORAÇÃO FALA AO CORAÇÃO”
Este fim de semana muito se vai falar de John Henry Newman (1801-1890). O Papa Francisco canoniza no domingo um dos intelectuais europeus de referência do século XIX e a quem a nossa contemporaneidade deve porventura mais do que ainda reconhece. A sua voz contradistingue-se, com claridade, num período histórico atribulado, mas particularmente rico no plano das ideias e do seu debate: basta dizer que partilhou o século de Comte, de Marx, de John Stuart Mill, de Herbert Spencer, de Nietzsche e, em parte, de Freud. Newman mergulha apaixonadamente na construção cultural do seu tempo, mostrando que o contributo dos crentes se joga também aí, e de forma decisiva. Fá-lo, por exemplo, ajudando a pensar, a partir de dentro, o que é uma universidade, não como fragmentado lugar de saberes especializados mas como laboratório de consciência crítica que ensina a pensar globalmente, com rigor e humildade. Uma universidade, na visão de Newman, não se pode contentar em preparar economistas, engenheiros ou médicos. A sua finalidade prática é, antes de tudo, formar pessoas capazes de elevar o tom de toda a sociedade.
Mas será no campo da hermenêutica da experiência religiosa e na defesa da legitimidade racional do ato de fé que o mestre oxfordiano mais se empenhará. Como ele dirá, “o ato ou processo de fé é certamente um exercício da razão”. E, investindo nesse sentido, constrói um legado impressionante de reflexão sobre o humano e sobre a natureza e modalidades daquilo a que chamamos conhecimento. Quando confrontamos o seu discurso com o do empirismo racionalista que então triunfava, percebemos a sua grandeza, pois cartografa a existência de forma bem mais atenta, original e polifónica. Newman recusava-se a aceitar a redução do homem a máquina de raciocínios, como se a única gramática possível fosse a lógica. Complementa, por isso, o exercício raciocinante com o exercício de relação continuamente operado pelo homem, “um animal que vê, sente, contempla e atua”. Quando saiu na coleção ‘Teofanias’, da Assírio, a belíssima tradução portuguesa que Artur Morão fez do “Ensaio a Favor de Uma Gramática do Assentimento”, lembro-me do interesse que gerou não só entre teólogos mas também em filósofos, em teóricos da literatura, em arquitetos, em juristas. O que o oratoriano, nascido em Londres, demonstra é que um grande livro de teologia é sempre um texto de cultura, capaz de ressoar para lá do seu tempo.
Um grande livro de teologia é sempre um texto de cultura, capaz de ressoar para lá do seu tempo
Newman é justamente considerado um dos precursores do Concílio Vaticano II. A sua marca é bem nítida pelo menos em três temáticas-chave. A primeira delas é a da valorização do laicado. Praticamente transcreve-se o pensamento de Newman quando se refere o papel dos fiéis leigos em matéria de fé (Lumen Gentium 12). Outra é a do primado da consciência. Para o autor do célebre manifesto “Carta ao Duque de Norfolk”, a consciência é a capacidade que o homem tem de reconhecer a verdade e ao mesmo tempo o dever de encaminhar-se para ela. É isso que o Concílio Vaticano II assumirá na Gaudium et Spes, recordando que “a consciência é o centro mais secreto e o santuário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser” (n. 16). Uma última mas não menos importante inspiração de Newman é a do ecumenismo. Um testemunho disso é o facto de um poema seu se ter tornado um dos hinos espirituais mais repetidos nas diversas Igrejas cristãs: “Sê tu a conduzir-me, luz gentil/ Sê tu a guiar-me na escuridão que me cerca;/ a noite avança e a minha casa é distante/ Sê tu a conduzir-me, luz gentil.”
Newman foi criado cardeal por expressa vontade do Papa Leão XIII, em 1879, e escolheu como mote do seu escudo cardinalício as palavras “Cor ad Cor loquitur”, “o coração fala ao coração”.
in Semanário Expresso, 11.10.2019 p.158
https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2450/html/revista-e/que-coisa-sao-as-nuvens/john-henry-newman-1
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À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
DOMINGO XXVIII COMUM Ano C
“Não se encontrou quem voltasse
para dar glória a Deus senão este estrangeiro?”
Lc 17, 18

No lugar do outro

Ou então, “na pele do outro”, que ficaria melhor ao falar da cura dos leprosos. Mas vai assim devido às palavras de Arthur Fleck, o comediante falhado do filme de Todd Phillips, magistralmente interpretado por Joaquin Phoenix, que se transforma no vilão que dá nome ao filme: Joker. Diz ele a dado momento numa entrevista televisiva: “o maior problema é que ninguém se põe no lugar do outro. Dizem que sim, mas não o fazem!” No meio da violência e tensão psicológica de uma pessoa e de uma sociedade perturbada, fica a ecoar este grito.
É com o grito suplicante de dez leprosos a implorar a compaixão de Jesus que começa o evangelho deste domingo. À distância, fora da povoação, sem se aproximarem, como determinava a lei, os leprosos, dez, número que indica totalidade, pedem ao Mestre a sua graça. Eles estão na periferia da vida, da sociedade, da salvação. Podem equiparar-se a “mortos em vida”, como outros em Israel: os pobres, os cegos, os que não tinham filhos. Mas eles ainda mais: não podiam tocar nem ser tocados por ninguém. Nenhuma rejeição dos homens e de Deus era maior. Viviam apenas uma solidariedade: aquela capaz de unir desgraçados e sofredores, ricos e pobres, judeus e samaritanos. A doença que nos despoja de títulos e separações, de julgamentos e exclusões, e reconduz-nos à comum e frágil humanidade.
É curioso como estes desgraçados não procuram salvar-se individualmente. Não estão centrados cada um em si, nem nos seus méritos. Entraram na pele uns dos outros e isso derrubou muros e egoísmos. É em grupo que Jesus os manda ir ter com os sacerdotes, os únicos que podiam atestar uma cura. E é no caminho que se sentem curados. Sempre o caminho a marcar a vida dos que acreditam em Cristo: só há milagres “em movimento” pois o amor de Deus não se instala. Sem saber quando, também nós, leprosos de mil outras lepras, vivemos a esperança da cura que nos faz mais irmãos e mais filhos.
Um deles regressa e lança-se aos pés de Jesus. Mais do que um gesto de agradecimento, Lucas diz-nos que vinha a gritar “glorificando a Deus”. É bom agradecer, abre-nos ao dom, mas pode ficar só aí. Cai-se na tentação de “pagar o favor”. A outro e até a Deus. É de outra ordem a atitude do samaritano, herói inesperado que transforma a vida ao encontrar a glória de Deus. Dizia S. Ireneu: “A glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a contemplação de Deus.” Uma graça que se paga perde o seu efeito multiplicador. Só a vida que se transforma em graça, que assume colocar-se “no lugar do outro” e responder à sua maior necessidade, que faz reviver quem estava morto é que salva. Nove ficaram curados, mas só um escutou: “A tua fé te salvou”!
Jesus entra na humanidade e coloca-se no nosso lugar, “entra na nossa pele”. E quando somos capazes de fazer o mesmo, os caminhos humanos tornam-se lugares de milagres. Tão simples e tão fundamentais! Não começa aí a missão que este mês de outubro tanto nos propõe?

in Voz da Verdade, 13.10.2019
http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=8442&cont_=ver2
Agora que escreveu na sua agenda, já avisou tod@s @s seus/suas Amig@s?
Sábado 19 de Outubro às 15.30
Conferência do Prof. Luca Badini  do Wijngaards Institute for Catholic Reform
às 15.30 no Convento de S. Domingos
Contamos consigo!



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