06 dezembro 2020

P/ INFO: Crónicas 

Frei Bento: É urgente e é possível mudar

Padre Anselmo: Eduardo Lourenço e Deus

Cardeal Tolentino: Advento

Padre Vitor: A Voz, o Deserto e o Caminho

É URGENTE E É POSSÍVEL MUDAR

Frei Bento Domingues, O.P.

O “inferno” em que transformámos o nosso planeta não é um destino fatal: poucos com a posse e a dominação devastadora de quase tudo e a grande maioria da humanidade com quase nada. É uma situação absurda.

1. Segundo um conhecido conto judaico, um rabino fez a Deus o seguinte pedido: ”Deixa-me ir dar uma vista de olhos pelo céu e pelo inferno”. O pedido foi aceite e Deus enviou-lhe, como guia, o profeta Elias.

O profeta levou o rabino a uma grande sala. No centro ardia um fogo que aquecia uma panela enorme, com um guisado que enchia o ambiente com o seu aroma.

À volta estava toda a gente pronta a servir-se, com uma grande colher na mão. Apesar disso, viam-se as pessoas esfomeadas, macilentas, sem forças, a cair.

As colheres eram mais compridas do que os seus braços, de tal modo que não as conseguiam levar à boca. As pessoas estavam tristes, desejosas e em silêncio, de olhar perdido.

O rabino, espantado e comovido, pediu para sair desse lugar espectral. De inferno já tinha visto o suficiente.

O profeta levou-o então a outra sala. Ou talvez fosse a mesma. Tudo parecia exactamente igual: a panela ao lume, com apetitosas iguarias, a gente à volta com grandes colheres na mão. Via-se que estavam todas a comer com gosto, alegres, com saúde, cheias de vida. A conversa e as gargalhadas enchiam a sala. Isto tinha que ser o paraíso! Mas, como é que se tinha conseguido uma tal transformação?

  As pessoas tinham-se voltado umas para as outras e usavam a enorme colher para levar comida a quem estava à sua frente, procurando que a outra ficasse satisfeita e assim acabavam por ficar todas bem!

Mesmo quem acha piada a este conto observa que não se lhe deve pedir demasiado: reproduz uma concepção demasiado simplista, sem interesse num mundo espantosamente complexo. As boas parábolas são paradoxais, enigmáticas e de inesgotáveis leituras.

Nem sempre. Este conto não se apresenta como uma teoria económica, financeira, jurídica para a organização da sociedade ou do Estado. Gosto do seu humor e da sua aparente ingenuidade. Não está nada longe da antropologia e da ética do filósofo alemão, Jürgen Habermas, ao mostrar que a vida do ser humano só se realiza na interacção com os outros[1].

O “inferno” em que transformámos o nosso planeta não é um destino fatal: poucos com a posse e a dominação devastadora de quase tudo e a grande maioria da humanidade com quase nada. É uma situação absurda. O destino universal dos bens faz parte da Doutrina Social da Igreja. Se fosse praticado, podia fazer deste mundo um paraíso do qual nos continuamos a expulsar. Existem, hoje, recursos científicos e técnicos para corrigir erros de um passado não muito longínquo. Como são mantidas e desenvolvidas as ambições que provocam guerras e devastações de toda a ordem, alimentamos, na opinião pública, a convicção de que não existem alternativas.

2. O Papa Francisco sonha com os olhos abertos. Sabe que não é, apenas, com as suas Exortações Apostólicas, Encíclicas, Discursos, Encontros ecuménicos e inter-religiosos, Declarações e Entrevistas, que pode suscitar mudanças de rumo de cuja urgência não desiste[2].

Com a sua linguagem nova e a problematização de falsas evidências, tem procurado mostrar que a Igreja deve ajudar a repensar tudo. Mas é especialmente com os seus gestos e atitudes, perante situações que parecem becos sem saída, que ele insiste, com os seus irmãos no episcopado e com toda a Igreja – crianças, adolescentes, jovens e adultos – que são possíveis mudanças que provoquem um sobressalto na sociedade.

 Pode parecer ingenuidade. Mas ele não esquece que as parábolas de Cristo, trabalhadas por quem redigiu as quatro narrativas do Evangelho, não são triunfalistas. Por exemplo, a parábola do fermento e a do grão de mostarda procuram não desencorajar as iniciativas que não se apresentam como êxitos imediatos, vistosos, convincentes.

No seu escrito mais recente[3], ele próprio pergunta: «Ainda poderemos acreditar na possibilidade de um mundo novo, mais justo e fraterno? Poderá esperar-se, verdadeiramente, uma transformação das sociedades em que vivemos, onde não seja a lei do deus dinheiro a dominar, mas o respeito pela pessoa, numa lógica de gratuidade? Teremos de assumir que o mundo é imodificável, com as suas injustiças que «gritam vingança na presença de Deus»? E a nós, homens de Igreja, resta-nos apenas a tarefa de pregar, com passiva resignação ou enunciar, como repetitiva obrigação, princípios tão verdadeiros quanto abstractos?

«No entanto, nenhuma mente honesta pode negar a força transformadora do cristianismo no devir da história. Todas as vezes que a vida cristã se difundiu na sociedade, de maneira autêntica e livre, deixou sempre um traço de humanidade nova no mundo. Desde os primeiros séculos».

O lançamento da Economia de Francesco pretende reatar essa tradição dos começos cristãos, pois o escândalo das evidentes desigualdades entre ricos e pobres – quer se trate de desigualdades entre países ricos e países pobres ou de desigualdades entre classes sociais no âmbito do mesmo território nacional – não é tolerável.

O Papa sabe que essa iniciativa é apenas um pouco de fermento, uma pequeníssima semente. Não é o mundo transformado. Na história humana, as grandes transformações não começaram pelo fim. Este é o primeiro desejado e o último conseguido.

3. Ao chegar a este ponto, recebi a notícia da morte de Eduardo Lourenço, um grande amigo de há muitos anos. Ajudou-nos a não repousar em certezas proclamadas de autores consagrados. A sua provocação cultural e cívica exige, não só estudiosos da sua obra, mas pessoas desafiadas a irem sempre mais longe e em muitas direcções. Provocou o catolicismo em que cresceu, até aos primeiros anos da Universidade de Coimbra, onde frequentou o C.A.D.C. e cuja Teologia apologética o desgostou.

O próprio Eduardo Lourenço explicou, muitas vezes e de muitos modos, o sentido da sua Heterodoxia (I e II). Acompanhou-o sempre a insepulta nostalgia de Deus[4]. Para ele, o Cristianismo não é uma religião. Mas a exigência “religiosa” específica do Cristianismo é a crítica radical do Poder pelo amor dos outros e, mais radicalmente, crítica de um Deus-Poder[5]. Para ele, «Cristo é o momento (sem limite de tempo) em que a humanidade tomou forma humana. (…) Foi crucificado não por querer ser deus, mas por ensinar o que era ser homem. Dois mil anos passaram sem que esquecêssemos nem aprendêssemos a lição»[6].

É preciso estudar o seu legado teológico, disperso por muitos lugares, para entender o que era e é a sua referência cristã. Precisamos deste cristão.

in Público 06.12.2020

https://www.publico.pt/2020/12/06/opiniao/opiniao/urgente-possivel-mudar-194in

 



[1] Cf. Jürgen Habermas, O Futuro da Natureza Humana, Almedina, 2006, p. 77

[2] Exortações Apostólicas: Evangelli Gaudium (2013), Amoris laetitia (2016), Gaudete et exsultate (2018), Christus vivit (2019), Querida Amazónia (2020); Encíclicas: Laudato Si’ (2015), Fratelli tutti (2020)

[3] Cf. Il Cielo sulla Terra, Editrice Vaticana, 2020. Cf. Pastoral da Cultura, 24.11.2020

[4] Cf. Eduardo Lourenço, Heterodoxia II, Gradiva2006, p.47

[5] Cf. Eduardo Lourenço, Religião – Religiões – Laicidade, in Seminário Internacional Europa e Cultura 1998, Gulbenkian, pp. 71-78

[6] E. Lourenço, in Opção nº 97, Março 1978, 2-8.

Eduardo Lourenço e Deus

 

1. Sobre Eduardo Lourenço, o filósofo, o ensaísta, o pensador — um dos mais lúcidos do nosso tempo —, o crítico da arte, das múltiplas artes, nomeadamente da literatura e da música..., outros já falaram e escreveram.

Encontrei-o várias vezes e gostaria de deixar aqui breves reflexões sobre o tema em epígrafe, a partir de alguns desses encontros, sempre iluminantes para mim.

2. 1. Participámos no Encontro de Lisboa, organizado pelo GOL — era então Grão-Mestre António Reis —, subordinado ao tema “Religiões, Violência e Razão”. E diz-me Eduardo Lourenço mais ou menos assim: Ainda bem que também cá está, porque se o meu avô me visse aqui...

A abrir o Encontro, falou da estranha crise contemporânea. Enquanto o Ocidente se desertifica de Deus, noutras culturas não só não há morte de Deus como, em vez da laicização, continuam na sua Idade Média, acreditando que o seu Deus é o verdadeiro e o Ocidente está em vias de perdição. De facto, o Ocidente teve um dinamismo incomparável, e a razão disso é que o seu debate foi sempre à volta de Deus. Noutras culturas, Deus é um dado e está no centro de tudo; no Ocidente, Deus tem sido uma interpelação infinita. Deus não é uma evidência, porque não é um objecto. Deus é o nome, precisamente enquanto anti-nome, da nossa incapacidade de captar o Absoluto, o modo de designarmos a nossa incapacidade de ocuparmos o seu lugar. O Ocidente é a procura e o debate à volta desta questão. É-se contra a objectivação de Deus, porque Deus-pessoa não é objectivável. Deste modo, o Ocidente afirma-se como procura da liberdade. Quando, noutras culturas, se dá a pretensão de apoderar-se de Deus, temos fanatismo.

E continuou, dizendo que, quando se dogmatiza, é para dominar. A perspectiva cristã caminha sobre outro chão. Aqui, Deus aparece como não violência, como puro amor, como espaço de liberdade absoluta. Sem Ele, as nossas liberdades não têm lugar. Ao revelar-se como amor, Deus mostra que, se a violência é o estado natural, a não violência é que é o mistério, e o que liberta é o não poder.

2. 2. De outra vez, vínhamos de um debate, já tarde na noite, do Casino da Figueira para o hotel. E eu disse-lhe que o tinha citado num artigo, pois dissera ao EXPRESSO que lhe “pode acontecer rezar”. E ele: “Admira-se? Todas as pessoas rezam”.

2. 3. Em 2016, estivemos de novo no Casino da Figueira, para um debate sobre “Utopia e distopias”. Nele, reflectiu sobre a herança europeia, atravessando a Grécia, a cristianização, o humanismo..., e desembocando nos nossos dias, com esta afirmação: a Europa “nunca esteve tão confrontada com um desafio tão novo”, e “o centro da crise está em França, que está a discutir se tem ou não identidade, e isso é de ficar aterrado”. Daí passou para o medo que a Europa enfrenta em relação ao mundo islâmico, considerando que “o maior aliado do islão é a Arábia Saudita, país que alimenta o cruzadismo que vem desse lado. Mas o mundo tornou-se tão pequeno que nada se pode pôr à margem”.

E ficou-me este aviso: A força e o poder de Vladimir Putin vêm-lhe de ele considerar “a Santa Rússia” como a última barreira contra a islamização da Europa.

2. 4. Devo uma palavra de especial gratidão a Eduardo Lourenço pelo prefácio luminoso, logo no título: “Suicidário Ocidente”, seguido do dito célebre de Fernando Pessoa “Não haver Deus é um Deus também”, com que honrou o meu livro “Deus Ainda Tem Futuro?” (2014). Ficam aí alguns parágrafos.

“Enquanto Ocidente, o nosso mundo conhece uma desertificação religiosa sem precedentes e, na aparência, irremediável. Tal é o diagnóstico de Marcel Gauchet, um dos seus paradoxais exegetas inconformado com essa nova versão da tão glosada “morte de Deus”, vivência radical da ausência de sentido para a Vida em si mesma e nós nela. Distingue-se esta nova situação do canónico “ateísmo” que sob a figura da negação de Deus era ao mesmo tempo uma figura da certeza, a mais radical de todas.

... o conteúdo único daquilo que ainda chamamos “história humana” não explicita uma luta análoga a uma fábula à Saramago, um desafio mítico entre o Homem e Deus, mas uma luta sem fim do Homem consigo mesmo como o Outro, com a inconsciente esperança de que o vencedor dela seja enfim o Deus criador e todo-poderoso que nos forneceu o modelo da vontade de poderio que é a essência demoníaca da Humanidade.

Questão atrevida e que na verdade soa a blasfémia (ou soaria, se a formulássemos em terras do islão) esta, que sabemos grave e urgente como nenhuma outra para ocidentais em vésperas de descerem a novas catacumbas: Deus ainda tem futuro? Quando aquela, menos vertiginosa mas não menos apocalíptica, seria: O Homem, a Humanidade, ainda tem futuro?

... Não tardará muito que entremos no tempo da hipercomunicação com o mundo à volta convertido numa espécie de deserto ignorado dos antigos. Foi desta autodesertificação que a dúvida apenas formulável acerca de Deus pôde nascer. Não esperemos que o Deus imaginado por nós como sem futuro venha, como o Cristo de um célebre conto de Eça de Queirós, confirmar-nos que ainda está entre nós. Do silêncio de Deus que nós mesmos criámos não virá nenhum socorro. É diante dele como Ausência suposta e Presença agostinianamente mais interior a nós do que nós que somos convocados para fazer prova de vida. E de vida eterna. A única que nos ajuda a suportar todas as ausências dos que nesta vida nos foram, à maneira de Dante, reflexos de uma Luz mais clara do que a do sol e das estrelas.”

3. O Deus de Eduardo Lourenço era o Deus de Jesus e dos místicos.

in DN 05.12.20

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/05-dez-2020/eduardo-lourenco-e-deus-13103429.html?target=conteudo_fechado

ADVENTO

Cardeal Tolentino

 

SÓ QUEM TEM A FACULDADE DE SE ABANDONAR AO ABERTO EXPERIMENTA O QUE SEJA A ESPERA. DE PEQUENAS ESPERAS OS NOSSOS DIAS TRANSBORDAM E, NÃO RARO, PARECE QUE AÍ TUDO SE ESGOTA

 

QUE COISA SÃO AS NUVENS

 

Não, o confinamento não é apenas uma invenção desta estação atribulada, e nem sempre é um limite que nos chega imposto de fora. Se pensarmos mais a fundo na experiência humana que realizamos, não é difícil nos reconhecermos confinados há muito tempo, blindados por decisão própria, como se a forma final da nossa existência coincidisse na perfeição com o exíguo território daquilo que dominamos. E, porém, se alguma coisa nos distingue no universo é precisamente a impossibilidade de coincidirmos connosco próprios e de sermos nós a resposta para a interrogação que trazemos. Na verdade, é sempre na luz da candeia avizinhada por um outro, e pelos outros, que acedemos à visão do que somos, pois o nosso olhar e as nossas possibilidades, por si só, são inconclusivos. Mas custa-nos reconhecer isso. Vida fora, tornamo-nos hábeis em substituir as portas por muros e a preferir as estalagens ao aberto dos caminhos. Vida fora, conformamo-nos, sabe-se lá porquê, à ideia de que só podemos contar connosco mesmos, revendo em baixa as nossas expectativas e removendo da nossa alma a espera. E, contudo, bem mais do que possamos imaginar, debaixo de todos os artifícios e camuflagens, nós permanecemos os esperantes. Dependemos do ad-vento, do que está para chegar.

Uma das reflexões contemporâneas mais incisivas sobre a espera é aquela proposta por Martin Heidegger através da distinção entre “esperar” e “estar/ser em espera”. O esperar pontual ligase habitualmente a um objeto, enquanto que a espera autêntica não é espera disto ou daquilo, mas sim abandono e entrega ao aberto. Só quem tem a faculdade de se abandonar ao aberto experimenta o que seja a espera. De pequenas esperas os nossos dias transbordam e, não raro, parece que aí tudo se esgota. Há aquela parábola terrível que nos é oferecida por Kierkegaard: no presente, a condução do barco passou para as mãos do cozinheiro e o que vem transmitido ao megafone do comando já não é a rota, mas o que comeremos amanhã. Da espera de longa duração, daquela que nos confronta não apenas com as interrogações penúltimas, mas arrisca tocar as últimas, dessa que se prende com o sentido da vida e com aquilo que nos salva, aprendemos a proteger-nos. E esse é também o nosso drama.

A liturgia cristã é uma escola e um teatro da espera. E, em particular, neste tempo até ao Natal — tempo que, não por acaso, recebe o nome de Advento — aquilo que se treina é precisamente a grande espera. Há dois elementos chamados a entrar em jogo: a pobreza de coração e a compreensão de que o dom antecede a procura. Em campo está a pobreza, porque a verdadeira espera é uma arte da despossessão. Em vez de nos apoderarmos do tempo, como se fossemos os seus senhores, colocamo-nos à escuta, trabalhando o esvaziamento, tanto externo como interior. E em campo está uma nova compreensão do modo como nos articulamos com o dom. Normalmente, colocamos primeiro a procura e depois o dom, como se fosse um fruto daquela. Ora, o tempo do Advento opera uma viragem: referindo-se ao dom que o mistério da incarnação de Jesus representa, mostra como é ele a anteceder e a resgatar toda a procura. Naquela frase enigmática do profeta Isaías: “Fui buscado por aqueles que não perguntavam por mim, reveleime àqueles que não me procuravam” (Is 65,1), percebemos que, de facto, a prioridade pertence ao dom, e que este é o motor de tudo o resto. Por isso, como escreve o teólogo Ermes Ronchi, o Advento constitui “uma porta que se abre, um horizonte que se alarga, uma brecha na muralha que nos cerca, um buraco na rede, uma fissura no teto, um punhado de luz que a liturgia nos atira à cara. Não para ofuscar, mas para nos acordar”.

É SEMPRE NA LUZ DA CANDEIA AVIZINHADA POR UM OUTRO, E PELOS OUTROS, QUE ACEDEMOS À VISÃO DO QUE SOMOS, POIS O NOSSO OLHAR E AS NOSSAS POSSIBILIDADES, POR SI SÓ, SÃO INCONCLUSIVOS

in Expresso, 05.12.20

https://pdf.leitor.expresso.pt/infinity/article_popover_share.aspx?guid=65f110c2-f7e2-46a2-9979-196c9f028ffd

À PROCURA DA PALAVRA

DOMINGO II DO ADVENTO Ano B

Pe. Vitor Gonçalves

“Uma voz clama no deserto:

‘Preparai o caminho do Senhor,

endireitai as suas veredas’”

Mc 1, 2

 

A Voz, o Deserto e o Caminho

 

Não há Advento sem a voz de João Baptista. E porque aprendemos a reconhecer o tom e o som das vozes que nos chamam e guiam, por entre muitas outras que nos desviam, a voz de João acorda-nos e convoca-nos para a mudança. Ele é coluna de amplificação da Palavra que veio fazer-se carne, humano e divino para nos salvar. Mas a conversão custa, e nunca está completamente feita, num processo de avanços e recuos. Quem não conhece tentação de não escutarmos nenhuma voz que nos convida a mudar, a distracção com qualquer coisa, o disfarce dos medos de encarar a verdade de Jesus Cristo? Será este o “sono da mediocridade” de que falava o Papa Francisco aos novos cardeais?

“Sobrevém quando esquecemos o primeiro amor e avançamos apenas por inércia, prestando atenção somente a viver tranquilos.” E quase em paralelo leio uma frase de Eduardo Lourenço, o grande pensador que nos estimulou a pensar, falecido a 1 de dezembro: “Hoje podemos estar uma vida inteira a ver cinema, televisão ou um ecrã e morrer sem ter entrado na vida.”

Não há Advento sem deserto. Ali, onde somos despojados de comodidades e seguranças, de mapas e sinais, onde só há céu e terra e é preciso procurar alguma fonte escondida, é possível escutar melhor Deus. Assim faz a multidão que deixa a Judeia e Jerusalém para ir ao deserto escutar João Baptista, lembrando esse lugar da fidelidade primeira; e onde o profeta Oseias, nos poemas de amor de Deus-esposo lembra a sua decisão: “ao deserto a conduzirei, para lhe falar ao coração” (Os 2, 16-17). No imenso deserto da humanidade assolada por esta nefasta pandemia, de que nos fala Deus, senão do seu amor que nos convida ao essencial? É preciso mudar a nossa relação com o mundo e o cuidado com a “casa comum”; é preciso mudar os critérios do imediatismo, do consumismo e da ganância; é preciso mudar as relações entre as pessoas, que precisamos reconhecer como irmãos. Pudéssemos dizer como Eduardo Lourenço: “O que mais me surpreende nos outros: a autenticidade. Cada pessoa é um mundo. Mesmo as pessoas que têm momentos de menos visibilidade e relevo, as pessoas são um mistério a que nunca daremos a volta.”

Não há Advento sem caminho. Todos os caminhos impõem, pelo menos, duas dificuldades: o começo e a perseverança. Com melhores ou piores preparações, mapas ou a sua ausência, hora marcada ou flexível, só ou acompanhado, o primeiro passo tem um peso inesperado. E se em qualquer caminho há de tudo, êxitos e retrocessos, dúvidas e interrogações, decisões e provas a superar, a tentação de desistir vai-se insinuando subtilmente. Os primeiros cristãos eram conhecidos pelos do “Caminho”. Caminho que é Jesus Cristo e que fazemos n’Ele e com ele. Em constante desejo de nos encontrarmos com Ele, de abrir-lhe caminhos no mundo e na Igreja, de fazer dos pobres o centro da nossa vida. E caminhar não é viver de alma aberta às surpresas de Deus? Que o diga Eduardo Lourenço: “Tenho vivido deixando-me surpreender.”

in Voz da Verdade 06.12.20

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