Mostrar mensagens com a etiqueta Frei Bento Domingues. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Frei Bento Domingues. Mostrar todas as mensagens

19 maio 2020

CONVERSÃO ECOLÓGICA E DO DESEJO DISTORCIDO, Frei Bento Domingues, O.P.


CONVERSÃO ECOLÓGICA E DO DESEJO DISTORCIDO
Frei Bento Domingues, O.P.
Esta crise obrigou-nos a parar. Mas suspeito que este medonho susto ainda não conseguiu alterar, em profundidade, a mentalidade geral.
1. Chegam-me de vários lados, com propósitos diferentes, notícias e comentários sobre o comportamento lamentável de algumas correntes do alto e baixo clero unidas no afrontamento das medidas recomendadas pela OMS e que a DGS e os governos impõem para evitar o contágio do covid-19. Unidas também no declarado incitamento ao seu desrespeito, a nível nacional e internacional.
Essas movimentações ressurgem quando muita gente já se sente desesperada entre o apertado confinamento, o emprego perdido, a ronda da pobreza, a ameaça da morte e um futuro de pouca esperança. A agitação de algumas tendências do clero revela, no entanto, outra conhecida e renovada motivação: atacar a pastoral do Papa Francisco para que as linhas mais inovadoras do seu pontificado e do seu estilo morram e sejam enterradas com ele.
Procura-se fazer acreditar que Bergoglio é um instrumento das forças que desejam acabar com a prática religiosa, já muito enfraquecida, numa Europa laicizada. É preciso estar em sintonia com maçónicos, comunistas e ateus para proibir missas abertas ao público e impedir as grandes e tradicionais manifestações da fé católica. Este Papa, dizem os seus adversários, acaba sempre por fazer o jogo dos inimigos da Igreja, transformando-a numa banal associação filantrópica com igrejas de portas fechadas.
 Para a grande maioria dos católicos, a relevância do exibicionismo desse clero, com mitra ou sem mitra, depende, em grande parte, do acolhimento que lhe é dado em certos meios de comunicação e não pela sua real representatividade.
Por mim, não posso deixar de louvar a coragem do Bispo de Leiria-Fátima – em harmonia com a Conferência Episcopal – pela atitude exemplar, em relação à maior manifestação da religiosidade popular de Portugal e do Ocidente. Mostrou, pela sua decisão, que para Jesus Cristo a maior glória de Deus é o cuidado com a saúde e a vida dos seres humanos. Esse cuidado vale mais do que o cumprimento literal de todas as promessas e sacrifícios. Deus lê nos corações e o mal pede mais combate inteligente do que teologuemas sacrificiais, que insultam piedosamente o infinito mistério que envolve a nossa condição.
O Bispo António Marto tornou-se testemunha do sentido, para o nosso tempo, do célebre diálogo de Jesus com a Samaritana junto ao poço de Jacob[i]: os verdadeiros adoradores de Deus não são os que adoram em Jerusalém ou em Garizim, em Roma ou em Meca, em Fátima ou em Lourdes, mas aqueles que O adoram em espírito e verdade, dentro ou fora de qualquer igreja. O verdadeiro e sagrado templo da divindade é o ser humano, no acolhimento do outro como irmão. 
Com esta observação, não estou a desvalorizar a importância dos espaços sagrados nem a simbologia do calendário das celebrações da fé cristã. O espaço, o tempo e a itinerância são dimensões fundamentais da nossa condição que não pode prescindir da linguagem de ritos sagrados e profanos.
Participei, muitas vezes, no 13 de Maio na Cova da Iria e nunca senti nada de tão comovente como a imensa Procissão das Velas e do Adeus, ambas completamente inúteis, como são os grandes poemas e como é este: o de um povo sofrido que não desiste nem de partir nem de regressar. Fátima é o barco e o cais das nossas reais e míticas viagens na escuridão do mundo[ii].
2. Vivemos na civilização da velocidade, da pressa em chegar sempre antes do outro. Esta crise obrigou-nos a parar. Mas suspeito que este medonho susto ainda não conseguiu alterar, em profundidade, a mentalidade geral. Continuamos a perguntar quando poderemos regressar à vida normal. Aquilo a que chamamos vida normal já mostrou, nesta calamidade, as suas estruturais anormalidades semeadas de velhas e novas desigualdades vergonhosas. E surge a pergunta: o que é possível e desejável fazer para acudir ao presente e preparar um futuro viável?
As retóricas descrições de tudo o que está mal – à vista de quem quiser ver – e as retóricas das receitas prontas a resolver todos os problemas parecem-me que confiam demasiado no poder mágico das palavras. A eficácia da linguagem performativa é de outra ordem.
Fazer coincidir a rapidez do dizer com o acontecer das transformações sociais pertence à ordem do milagre, pouco frequente, no devir da natureza, da cultura e da investigação.
Os sistemas autoritários pretendem substituir, pelo quero, posso e mando, a lentidão das decisões democráticas de consensos alargados. No entanto, se as democracias se perderem na exibição de labirínticas discussões clubísticas acabam por cansar os cidadãos que reclamam e esperam resultados, em todos os domínios, para a construção do bem comum.
Será possível combinar as respostas às urgências maiores da população mais pobre e ir alterando o sistema económico dominante e insustentável, assente na exploração ilimitada de recursos limitados e em perpetuar escandalosas desigualdades sociais?
Há quem pense que é este o tempo certo para delinear futuras estratégias económicas baseadas na tríade inseparável: biodiversidade, alterações climáticas e saúde pública[iii].
3. Perante a tragédia que estamos a viver e pensando no futuro, é recorrente a expressão, nada pode continuar como dantes. Quem assim fala manifesta vontade de mudança, de conversão. Quem, pelo contrário, não quer perder a vida altamente privilegiada de que disfruta, até da crise procura servir-se para alargar os seus injustificados privilégios.
Em 2015, o Papa Francisco publicou a encíclica Laudato SI sobre o cuidado da Casa Comum que inscreveu no movimento ecológico mundial. É um documento minucioso e abrangente que mostra a raiz humana da crise ecológica, fruto e causa de muitas outras crises. A ecologia integral que propõe envolve múltiplas dimensões: ambientais, económicas, sociais e culturais, vida quotidiana, seguindo sempre o princípio do bem comum e da justiça intergeracional. Não se limita aos aspectos doutrinais. Apresenta também linhas de orientação e acção, para vencer a indiferença geral e os obstáculos levantados pelos interesses insensatos dos poderosos.
Nada disto, porém, é possível sem uma autêntica conversão ecológica e uma espiritualidade que alimente a paixão pelo cuidado do mundo e não pela sua dominação destruidora. Por outro lado, para chegar à conversão ecológica é indispensável a conversão do desejo distorcido. Quem deseja tudo para si próprio só pode ver, nos desejos dos outros, rivais a dominar ou abater. Não sente alegria com a diferença.
in Público 17.05.2020



[i] Jo 4, 1-42
[ii] Frei Bento Domingues, A Religião dos Portugueses, Temas e Debates – Círculo de Leitores, 2018; ver também Anselmo Borges, Fátima e a covid-19, in Público, 13.05.2020.
[iii] Maria Amélia Martins-Loução, O tempo certo, in Público, 26.04.2020.



11 outubro 2016

Mulheres na igreja - debate

Teve lugar no passado dia 29 de setembro na Biblioteca Ana de Castro Osório um debate sobre Mulheres na igreja com Luísa Ferreira Ribeiro, Frei Bento Domingues e Maria João Sande Lemos que se pode ouvir aqui: https://archive.org/details/MulheresNaIgreja

08 abril 2012

AS MULHERES DA PÁSCOA

AS MULHERES DA PÁSCOA
Frei Bento Domingues, O.P.

1. As mulheres entraram muito cedo e de vários modos na vida de Jesus de Nazaré. Hoje, é quase impossível imaginar a importância desse fenómeno. Seria necessário estudar o lugar da mulher na cultura religiosa do tempo de Jesus, para perceber o alcance da revolução que ele desencadeou. Vivemos numa época na qual a mulher tem um papel cada vez mais activo na vida e na liderança das sociedades, mas a sua situação na Igreja é um anacronismo que, esperamos, os anos se encarregarão de vencer.
A exegese feminista conquistou, no âmbito das abordagens contextuais, um lugar, ainda não ao sol, mas à sombra, no documento da Comissão Pontifícia Bíblica, de 1993, (A interpretação da Bíblia na Igreja).
O que espanta é a lentidão em reconhecer o que parece claro no Novo Testamento e que, ainda hoje, muitos não querem ver o que estão a ver, devido à resistência de uma cultura secular anti-feminista que os torna cegos, mas vamos por partes.
2. No Evangelho de S. Lucas, depois da cena escandalosa da mulher que surpreendeu, tocou e beijou Jesus, na casa de um fariseu, onde ele estava a jantar – e para onde ela não tinha sido convidada - (Lc. 7, 36-50), são as mulheres que surgem em grupo, de uma forma estranha e ambígua. Vale a pena transcrever o texto: “depois disso, ele andava por cidades e aldeias, pregando e anunciando a boa nova do reino de Deus. Os Doze acompanhavam-no, assim como algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e doenças: Maria, chamada Madalena, da qual haviam saído sete demónios, Joana, mulher de Cuza, o procurador de Herodes, Suzana e várias outras, que os serviam com os seus bens.” Iremos encontra-las depois da Ressurreição dedicadas a converter, muito a custo, os Apóstolos que lhes não davam crédito (Lc. 24, 9-11). São elas as mulheres da Páscoa cristã.
O grande historiador judeu, Flávio Josefo (
37 ou 38 – c. 100 d.C), nas Antiguidades Judaicas, afirma, por duas vezes, que ”o testemunho das mulheres não deve ser aceite por causa da fragilidade e presunção do seu sexo”. Noutra passagem, com outras palavras, repete a mesma ideia: “das mulheres não se pode aceitar nada como certo, por causa da ligeireza e temeridade do seu sexo”.
Um outro judeu, Jesus de Nazaré, parece que estava apostado em atirar pelos ares, costumes e ideias, que perpetuavam a marginalização do testemunho das mulheres. A opção deste Nazareno era de um atrevimento escandaloso, ao fazer delas testemunhas da sua Vida, da sua Paixão, da Ressurreição e do Pentecostes.
É certo que começam a aparecer, no Evangelho de S. Lucas, em grupo, mas de uma forma sorrateira e como que, apenas, financiadoras do novo projecto. Dá a ideia que foram conquistando terreno até ao momento extremo de tornarem o futuro do movimento cristão dependente delas. Não me parece nada que tenha sido assim, embora não tenha espaço para o demonstrar.
As narrativas do Novo Testamento, aquilo a que chamamos os Evangelhos, são fruto de várias tradições, de várias comunidades, de tempos e culturas diferentes. O que espanta é que sendo textos escritos por homens, também eles marcados pela mentalidade reflectida por Flávio Josefo – basta ver o que pensavam os apóstolos quando elas os procuravam evangelizar (Lc. 24, 9-11) – como é que os seus escritos testemunham uma presença impressionante de mulheres em torno de Jesus e nas Igrejas nascentes. Aqueles que desejam abafar o papel que as mulheres devem desempenhar actualmente na Igreja, imaginam Jesus, de Mitra e Báculo, a ordenar, numa Missa solene, os doze apóstolos, mostrando assim que Jesus, de Mitra e Báculo, não ordenou nenhuma mulher. E homens?
É uma imaginação a funcionar ao contrário. O que podemos e devemos imaginar é o que deve ter sido a presença activa das mulheres, em todo o percurso de Jesus, para ter resistido ao aperto cultural e religiosos do seu tempo.
3. Pertence aos exegetas continuar a analisar, com todos os métodos de que dispõem, as narrativas sobre o túmulo vazio e as aparições do Ressuscitado. Essas narrativas coincidem em algo essencial: A morte não teve sorte com Jesus: Ele está vivo e para sempre; é o mesmo, embora já não da mesma maneira. Aos discípulos pede que sejam testemunhas dessa esperança, essa memória de futuro.
Não se trata de nada que se possa provar por qualquer das ciências que existem. É de outra ordem. A fé, como diz o filósofo Wittengstein, é fé naquilo de que necessita o meu coração, a minha alma e não a minha inteligência especulativa. Pois é a minha alma com as suas paixões, por assim dizer, com a sua carne e sangue, que tem de ser salva e não a minha razão abstrata. Só o amor pode acreditar na Ressurreição.
O espantoso capítulo 20 do Evangelho de S. João conta que uma mulher, Madalena, liberta e apaixonada, não largou Jesus nem na vida, nem no vazio da morte, nem no túmulo. Continuou a procurá-lo. Não o encontrou, mas foi encontrada por aquele que sabia o seu nome. A sua recompensa foram novos trabalhos, uma encomenda directa do Ressuscitado: “vai, a meus irmãos e diz-lhes: Subo a meu Pai e vosso Pai, a meu Deus e vosso Deus”. Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: vi o Senhor e as coisas que ele lhe disse.
Porque impedir as mulheres da Páscoa de realizarem a sua missão apostólica na vida da Igreja ao serviço da transformação do mundo?
Artigo copiado do Jornal Público de 8 de Abril 2012