21 abril 2013

Dois ouvidos e uma boca

1. Há mudança de clima no interior da Igreja Católica e na sua relação com a grande diversidade de mundos em que vive. Pelo menos, assim parece. Foram celebrados os 50 anos do Vaticano II, está a ser revisitada a Encíclica Pacem in Terris e não vai ser ocultado o sentido da consternação mundial pela morte do Papa João XXIII (3.06.1963). A este respeito, conta a grande filósofa de origem judaica, Hannah Arendt, que a sua criada, estando ele já no leito de morte, lhe diz: ”Minha senhora, este papa era um verdadeiro cristão, mas como pôde um verdadeiro cristão sentar-se no trono de S. Pedro? Ninguém se terá apercebido de quem ele era?”
Para os lefebvristas estas datas serão sempre para esquecer ou combater. Para os que se identificam com elas, já não têm de as celebrar com nostalgia. Sentem que o longo inverno está a passar e que é possível retomar o caminho. Os mais cautelosos avisam que uma andorinha não faz a Primavera e os mais novos não sabem do que os mais velhos andam a falar. Talvez acabem por descobrir.
Para já e para novos e velhos, aconteça o que acontecer no futuro, o Papa Francisco começou bem. Os gestos, as atitudes e as palavras do Papa já indicaram que é possível virar uma página triste na história eclesiástica, precisamente a página de interregno entre o Concílio e as urgências da hora actual. Ao trazer as margens para o centro da Igreja, ele situou-se no coração do mundo contemporâneo. A conversa da Igreja corre sempre muito mal quando é a de eclesiásticos entretidos com eclesiásticos, sejam seminaristas, estudantes de teologia, párocos, cónegos, monsenhores e bispos preocupados com as suas carreiras e avaliando a cotação das suas clientelas. Essas sacristias nunca poderão entender o horizonte do mundo como espaço da Igreja.
Não se pode esquecer que na celebração do baptismo existe o ritual da sagrada unção dos ouvidos e da boca. Lembra à nova criatura e a quantos a acompanham que temos dois ouvidos para escutar as vozes e as mensagens de Deus que nos chegam de dentro e de fora, de todos os mundos, por mais estranhos que se apresentem. Só temos, porém, uma boca. Significa que só vale a pena falar de doutrinas e normas depois de muito escutar e observar, com bondade. O povo de Deus é constituído por aqueles que só Deus conhece e pelas mulheres e homens que, celebrando o baptismo, escutam o que Ele diz à Igreja através de todos os seres humanos, crentes, agnósticos ou ateus.
2. Não vai longe o tempo em que se começou a descobrir a importância da inculturação da fé cristã no seu duplo movimento: o que ela recebe das diferentes culturas e a graça do Evangelho que oferece para as fecundar. É um diálogo existencial, por obras, atitudes e palavras. O Papa Francisco, pela sua prática mais recente, parece querer retomar esse antigo percurso, muitas vezes esquecido.
Encontramos, com efeito, na Eucaristia deste IV Domingo da Páscoa, Paulo e Barnabé, duas grandes figuras dos Actos dos Apóstolos, a começarem a apresentação do testemunho Jesus Cristo nos dias e lugares que, enquanto judeus, lhes eram mais familiares: nas Sinagogas aos Sábados. Sob o ponto de vista físico, religioso e cultural estavam em casa. Passava-se tudo em família e com êxito. Parecia que estavam todos no mesmo comprimento de onda (Act.13, 13-43). Na semana seguinte, verificaram com amargura que tinha acabado o encanto, a primavera da receptividade à nova mensagem.
Paulo e Barnabé não se deram por vencidos. Onde outros poderiam ver uma derrota, eles descobriram uma nova oportunidade, que sublinharam, aliás, com ironia: “era primeiro a vós que devíamos anunciar a palavra de Deus. Como a rejeitais e não vos julgais dignos da vida eterna, nós nos voltamos para os gentios”.
Sob o ponto de vista bíblico, não era uma traição. Frei Francolino Gonçalves[1], professor da Escola Bíblica de Jerusalém e membro da Comissão Pontifícia Bíblica, nos seus estudos sobre o Antigo Testamento (AT), chegou à conclusão que, no seu conjunto, é o resultado da fusão de duas religiões de Iavé muito diferentes. Começaram até por ser concorrentes e acabaram por se fundir, dando lugar a uma síntese. De facto, a religião que estamos mais habituados a ler no AT funda-se na história das relações entre Iavé e Israel, mas essa é a mais recente. A mais antiga funda-se na obra criadora de Iavé e, por isso, tem o universo como horizonte e nada tem de nacionalista. É radicalmente universalista, dirige-se a todo e qualquer ser humano que a descobre e manifesta na observação do cosmos, da natureza e da cultura. Pode ser um bom caminho para um diálogo inter-religioso.
3. Já passou um mês sobre a data da eleição de J. M. Bergoglio. Não passou o tempo dos sorrisos, mas são precisas decisões, reformas, especialmente da Cúria. Já escolheu 8 cardeais para as estudar. Nos dias 1, 2 e 3 de Outubro, terão a primeira reunião. A sua diversidade continental mostra que o centro da Igreja já não é a Europa, nem mesmo o Ocidente. Espera-se que, até Outubro, estejam de ouvidos bem abertos para escutar as vozes que têm sido e continuam a ser caladas.
Frei Bento Domingues, O.P.
in Público


[1] Iavé, Deus de Justiça e de Bênção, Deus de Amor e de Salvação, ISTA, nº 22 - 2009, pp. 107-152.

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