28 abril 2013

UM PAÍS NÃO É UM CONVENTO

1. A palavra reforma evoca muitas significações para além da mais corrente, isto é, a quantia - ora de fome, ora milionária - atribuída a pessoas aposentadas. A desejada reforma da Cúria vaticana é de outro género. Neste sentido, designa as medidas adoptadas para que uma instituição degradada volte à sua forma primordial. Nas épocas de decadência das Ordens Religiosas, por exemplo, a ideia de reforma era o sonho de um novo começo, através de um retorno à fonte do projecto inicial. Voltava-se às antigas observâncias, por vezes de forma anacrónica, mas com a intenção de encontrar o espírito fundacional. O regresso às primeiras expressões da pobreza era sempre a marca de uma reforma autêntica. Ao perderem o despertador da austeridade voluntária, as instituições religiosas fingiam ver na progressiva abundância dos seus bens, um sinal de bênção divina.
Fora da escolha livre e alegre do caminho da pobreza, a “vida religiosa” torna-se uma caricatura do Evangelho, uma prisão. Há critérios para avaliar a autenticidade das reformas na Igreja no seu conjunto ou nas Ordens Religiosas, pois como escreveu Yves Congar, existem verdadeiras e falsas reformas.
Reformar não consiste em reproduzir materialmente o passado. O “aggiornamento” é um modo de criatividade no seio das contradições da actualidade. Reproduzir a letra, sem o impulso do espírito, é a morte de qualquer reforma. João XXIII percebeu isto como ninguém, num contexto histórico assustador. Treinou-se, ao longo de toda a vida, nas situações mais diversas, a nunca esquecer que era apenas um aldeão, Angelo Giuseppe Roncalli, de Sotto Il Monte, de uma família pobre que nunca ganhou nada com ele ser padre, bispo, cardeal ou papa. 
A pobreza voluntária, a “dama pobreza” de S. Francisco de Assis, só tem sentido como afirmação de liberdade. Quem se faz pobre ou se mantém pobre, por vontade própria, diz a si mesmo e aos outros que não são as coisas, nem o desejo de possuir que mandam na sua vida. As austeridades são apenas instrumentos para moderar a desagregação dos apetites e aprender a hierarquizar os desejos. O culto da austeridade pela austeridade é uma doença. A escolha de uma vida moderada é uma sabedoria. Como dizia Sto Agostinho, mais vale precisar de pouco do que possuir muito.
2. Noutro registo muito diferente, em alguns países, foi imposto, como castigo, um regime de austeridade cada vez mais violento. Teve um momento de expressão estético-medicinal, cortar nas gorduras do Estado e das organizações, mediante um rigoroso programa de emagrecimento. Estas receitas tentavam corrigir erros – despesas sem sustentação - com outros maiores, paralisando e insultando as populações.
        Onde foram aplicadas, essas medidas cegas arruinaram a vida dos povos e impediram as reformas virtuosas, as produtivas. A obsessão pela austeridade nos decisores políticos não era inevitável. Foi uma opção. Quem o diz é o Nobel da Economia, Paul Krugman. Neste momento, são as próprias teorias económicas e financeiras que propuseram este caminho aos países, sobretudo aos preguiçosos do sul da Europa, que revelaram a sua debilidade. Nem o Excel foi poupado.
 Com a ideia fixa de que não havia alternativa, Portugal contraiu uma doença degenerativa, a “espiral da recessão”. O próprio presidente da Comissão Europeia perdeu a confiança nos “conselheiros tecnocratas” que, “nos dizem qual o melhor modelo, mas que quando perguntamos como o implementar, dizem que isso já não é com eles. Isto não pode acontecer a nível europeu” (Cf. Expresso on line 22.04).
A política de austeridade não atingiu apenas os seus limites. Lançou no desemprego milhões de pessoas. Não se devia poder brincar com o destino colectivo dos povos. A reforma da política de um país ou da UE não é a reforma espiritual de um convento. Pobreza voluntária é uma escolha virtuosa. Empobrecimento e miséria impostos por políticas erradas é crime, segundo a doutrina social da Igreja, cujo primado é o “bem comum”, ao serviço da dignidade das pessoas.
3. Os portugueses desempregados foram internamente humilhados e ofendidos como um povo de lamechas: quem não estava bem que emigrasse. De repente, Portugal era uma empresa na qual os que tinham trabalho deviam trabalhar mais horas e reformar-se mais tarde. Os outros eram dispensados, com a obrigação de não produzirem nada e procurarem viver de esmolas.
      Durante muito tempo, as lideranças da Igreja Católica tentaram mostrar que se estava a construir uma Europa esquecida das suas raízes cristãs. Com razão. Mas também elas se esqueceram de colocar os seus “cientistas sociais” a conceber e a trabalhar na construção de uma Europa possível, de pequenos passos, em bases sólidas, para que as ideologias e instrumentos mundiais da ganância não dominassem as suas políticas em regime de globalizada especulação financeira.
Nenhuma congregação faz votos de enriquecimento, mas acabam sempre por enriquecer. Não seria melhor adaptarem-se aos tempos modernos e desenvolver grandes empreendimentos, em nome de boas causas, católicas ou não católicas, na linha da religião da prosperidade, bênção divina?
Valha-nos Deus, ninguém tem culpa de que Jesus não tivesse jeito nenhum para o negócio. 
Frei Bento Domingues 
in Público

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