14 abril 2013

Tradição


Retomando o tema das Mulheres como Igreja e na Igreja: Olhemos agora para o segundo pilar em que assenta a proposta da total igualdade de mulheres e homens: a Tradição. Tradição significa a passagem, a rota, a transmissão, dos ensinamentos e da memória,  que são passados de geração em geração – com tudo o que tal implica de mutação e mudança, tanto quanto diz respeito ao corpus dos ensinamentos e à memória propriamente ditos, como à interpretação que deles fazemos. Acresce que a tradição não termina no nosso tempo pessoal e histórico. A tradição tem futuro. Invocar a tradição para perpetuar já nem sequer um estatuto de desigualdade para as mulheres na Igreja mas um estatuto de subordinação, apresenta-se como uma leitura muito errónea da tradição que nos leva a outras tradições há muito repudiadas pela instituição-Igreja, quando antes eram aceites, encorajadas, e assumidas, como seja a escravatura ou a perseguição tenaz de crentes de outras religiões.  Voltando às criaturas mulheres, essa mesma tradição deu valor a algumas mulheres, começando por Maria de Nazaré, pelo que as contradições no discurso oficial da Igreja institucional são tão gritantes como absurdas. A história da santidade de tantas mulheres, a história de mulheres fundadoras ou renovadoras de ordens religiosas, é tão rica e vasta na tradição e história da Igreja-instituição, e é a parte tão integrante dessa mesma tradição, que se torna impossível compreender o estatuto minoritário atribuído às mulheres. Quem tem transmitido a fé, de geração em geração? Quem tem sempre estado na primeira linha do trabalho missionário?  Se as mulheres são tão excepcionais e especiais, como tantas vezes nos é dito pela instituição, porque então ocupamos um lugar ‘exterior’, um lugar à parte, um lugar não-visível nos processos de decisão?
O conhecimento de que dispomos actualmente, baseado na sociologia, antropologia e psicologia (a ciência é mais um dom de Deus) permite-nos afirmar que os papéis e as funções, as qualidades e os defeitos que geralmente atribuímos aos homens e às mulheres mais não são do que uma construção social e, nessa medida, um constante processo de mudança e transformação. As ideias aceites acerca do que é próprio do feminino e do masculino, para além das diferenças biológicas que se relacionam com o imenso dom de Deus que constitui a sexualidade e a reprodução, nada devem à natureza e tudo à cultura. É por isso que se torna falacioso considerar que tradição é igual a ‘sempre foi assim e por isso assim deve ficar’ e utilizá-la para justificar a exclusão das mulheres do sacramento da ordem, por exemplo. Uma outra teóloga, Rosemary Radford Ruether, escreveu o seguinte:
 
Se as mulheres não podem representar Cristo, como é que Cristo pode representar as mulheres? Ou, dito de outra maneira, se as mulheres não podem ser ordenadas, então também não podem ser baptizadas. O que tudo isto significa é que a Igreja está a ser desafiada de uma nova forma para tornar coerentes a sua teologia, para pôr em sintonia a sua antropologia, a sua cristologia, a sua soteriologia. Se as mulheres são consideradas iguais em natureza e em graça, já não há base para declarar que não podem representar Cristo sacramentalmente.[1]

Ana Vicente

Abril 2013


[1] Rosemary Radford Ruether, ‘Women’s Differences and Equal Rights in the Church’, Concilium, Londres, 1996, p.15.

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