29 junho 2013

A samaritana Olívia

       
A dona Olívia fazia-me lembrar a samaritana sem nome. Aquela dos cinco maridos com um sexto do qual se comenta não ser dela. Embora se diga que a leitura dessa passagem do evangelho (Jo 4, 1-30) não deve ser literal nem lida no singular, a sua singularidade não deixa de conter muitas verdades de outras tantas realidades. A dona Olívia também teve cinco espécies de maridos, e as línguas que tendem a falar do que já é muito falado, diziam que esses eram só os conhecidos. Em rigor nenhum deles era marido, eram homens com quem viveu e a quem serviu na vida. Tal como o da samaritana, o sexto também não era dela e esse poderá ter sido mais que um. O quinto era um viúvo, ainda primo afastado que não sabia o que fazer para continuar vivo depois de a mulher ter morrido. Com ar de abandonado foi ter com a Olívia que o acolheu a ele, a um frigorífico e a uma máquina de lavar roupa. Em pouco tempo o homem parecia outro. Diziam: até já parece um homem casado. A ela não a elogiavam, nem sequer a mencionavam. Era preferível não o fazerem, pois iriam dizer que não tinha vergonha nenhuma. O quarto, o João padeiro, também tinha ficado viúvo. Tratava-a muito bem, e ela a ele melhor ainda. Entendiam-se e ele, como diziam, era amigo dela. Deixou-lhe uma pequena fortuna, para ela grande, na qual punha a sua segurança para quando fosse mais velha. Mas entregou-a ao cuidado dos filhos e alguns deles encarregaram-se de lhe abrir um caminho de saída, sem regresso, do banco para as suas dívidas. O terceiro homem apareceu na terra como vindo de lado nenhum, talvez de alguma gruta na serra ou das águas do rio. Havia muitas histórias a seu respeito: que tinha fugido a um crime, que abandonou mulher e filhos por não ter com que os sustentar, e os mais complacentes diziam simplesmente que tinha vindo parar ali à procura de trabalho. Vindo de lado nenhum agarrou-se ao lugar e à dona Olívia por alguns anos. Depois, tal como veio assim desapareceu sem deixar sinais de para onde. Os comentários mais benevolentes diziam: deve ter morrido. O segundo era um sapateiro que também tinha vindo em busca de trabalho e ali passou os dias de alguns anos ao lado da dona Olívia. Brilhante no exercício da profissão, dizia que ainda tinha forças para gastar meias solas com ela apesar de ela ser mais nova. Ela precisava de companhia e ele de uma lareira, de cobertores no inverno e de caldo quente. Ou, como diziam, precisava de tudo. O primeiro era mais ilustre. Homem já maduro, tinha um bonito cavalo que o transportava pelos caminhos de Deus e dos homens. Ela, ainda muito jovem, pouco mais que adolescente, já tinha as mãos ásperas do muito trabalho num tempo em que se geria mais a vontade de comer do que a comida. Ele, senhor de muitos bens que lhe davam pelo seu dedicado serviço, sentia debaixo do chapéu um denso peso na cabeça. A Olívia achava que ele era rico e lhe podia satisfazer muitas necessidades. Ele pensava o mesmo dela no que tocava a necessidades. Entre a troca e a partilha tiveram uma filha. Ela era simplesmente Olívia, ele era padre. Ele deixou de sentir na cabeça o peso do celibato, ela deixou de sentir um vazio na boca do estômago. Nem tudo foi assim tão simples, porque a vida é boa e bela segundo a perspectiva de onde se olha para ela. A vida da dona Olívia foi bastante colorida e diversificada, mas nem sempre boa. Nos últimos tempos ouvi-lhe dizer que desde há uns anos o seu verdadeiro marido era Jesus. Foi nesse momento que me veio à mente a Samaritana. Parece que também para ela, Jesus foi de algum modo o sétimo marido. Que dizer de uma e de outra? Eu não digo nada, que poderei dizer? Aí estão os dias e as noites na sua diversidade como juízes daquilo que somos e fazemos. A Samaritana já partiu para a luz eterna há dois mil anos. A dona Olívia partiu há dois meses. Era muito bonita, delicada e transparecia nela a serenidade contida no significado do seu nome. Sorrio quando penso que ao chegar a esse lugar sem lugar, envolto pela graça de Deus, terá ouvido uma voz a chamá-la: anda cá mulher, não há vida mais parecida com a tua que a minha. Que assim seja!
Frei Matias, O.P.
Junho 2013

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